Quinta-feira, 17 de Maio de 2018

Poema Infinito (405): A servidão das borboletas

 

 

Alegram-se as ovelhas com o medo dos lobos.  Nas florestas negras nascem agora as cidades. Os animais adquiriram um cheiro esquivo. O medo toca-lhes como se fosse estranho. A alegria anda desconfiada e preguiçosa. As cadeiras da sala do tempo ficaram vazias. Lá fora algumas mulheres baloiçam contemplando o frio e os sacramentos da morte. Outras põem a cerimónia nas mesas. Está servido o banquete preparado desde a manhãzinha. Do lado cinzento do dia gritam os pássaros. A geração leviana vai vivendo em casas que julga indestrutíveis. Dizem que se divertem com a sensibilidade do mar, com a sua frieza, com o vento que atravessa as cidades. Apagam a espera. Sofrem a amargura dos terramotos e pousam os seus olhares sobre as estrelas pálidas do Oeste. Brincam mesmo quando se dirigem para o seu destino escuro. As noites empalidecem com o mesmo desassombro das grandes aves. Já não me lembro com nitidez do rosto da minha mãe. A sua imagem cada dia se afasta de mim mais leve e cansada. No entanto, vejo as suas mãos bordando o infinito pano do desaparecimento. Ela cresceu no monte e morreu vendo caras que olhavam demasiado para o seu sofrimento. São coisas dessas que nos fazem endurecer. Talvez o importante tenha ficado por dizer. É essa facilidade aquilo que nos amaldiçoa. Essas palavras leves que fazem rir e que depois sufocam na nossa garganta. Crescem agora flores silvestres nos caminhos por onde andou e dançam borboletas junto às arvores que plantou. Nesse tempo andava eu nos carrocéis mágicos, às cavalitas do meu pai, baloiçava-me nos trapézios na companhia clara e bela dos outros meninos. A gente parava a ver-nos rir. Tocava-se então a gaita de beiços, os carros de bois gemiam pelas ruas e a vergonha não era mesquinha. Lavava-se a roupa branca em dias de sol. Sentia-se a terra gemer de prazer. Vestíamos a calma como se fosse uma luz azul. O tempo era mais longo e a tristeza deixava-se levar pelo vento. As ameixieiras floriam como se fossem mulheres alegres que pariam muitos filhos para alguns morrerem. Tudo parecia planeado para nunca acabar. Celebrava-se a utilidade das coisas, ensinavam-se as condutas mais práticas e os homens entregavam-se à honra. Nomeavam-se as pedras, os montes e os animais. Celebrava-se a neve e o passado enquanto as crianças cresciam por prazer. Criavam-se os costumes, punham-se colarinhos ao pescoço no dia de Páscoa, ensinava-se a arte de governar. Todos mandavam e todos eram servidos. Educava-se a gente na arte da palavra. Aprendia-se a atraiçoar o inimigo. Por vezes ainda sinto a delícia de começar que aprendi nas manhãs que via nascer. Depois punha-me a ler. Tudo era verde. Os galos cantavam. A cerdeira do jardim enchia-se de luz. Ensinaram-me que ser mau exigia muito esforço. Tentaram que eu acreditasse na possibilidade de despedir a infelicidade. Desperdiçava-se o tempo. Misturavam-se as melhores palavras com a carne que guisava no pote. Agora as cidades nutrem-se de carros e navios, nelas sobe o fumo. Os gestos são quase todos incertos. Esbanjam-se os mandamentos, as bocas são ociosas. Os bons conselhos apenas são emprestados. Regresso à velha casa depois do exílio. Atrás de mim vêm os rostos de todos queles que já morreram. Passo de carro sobre as ruínas. Já não tenho paciência para a esperança. Sobre o armário coloco a mala com os meus manuscritos. Junto ao rio, entre os choupos e os pinheiros, protegidos pelo muro e pelos arbustos, crescem ainda as flores mensais.


publicado por João Madureira às 07:15
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