Quinta-feira, 31 de Maio de 2018

Poema Infinito (407): Declinação

 

Todas as multidões arrastam atrás de si os seus próprios malefícios. Todos os seus deuses bebem o vinho da guerra com os seus patrícios. É da consequência dos choros configurarem o rosto da desgraça. O tédio compensa os compromissos da modernidade. A nova coragem nasce da lúcida conveniência dos compromissos. Os verdadeiros sentimentos nunca nos deixam satisfeitos. O futuro é como um boneco de neve que derrete enquanto os animais dão gritos. Os golpes de génio visam sempre o acaso. Viver continua a ser a hesitação entre a verdade e o erro. As fêmeas bebem a luz junto ao rio. Dos seus orgasmos se alimentam as plantas mais frondosas. Tudo desaparece dentro da arte, até a própria banalidade. Uns riem, outros choram, outros protegem-se contra o esquecimento. Tudo o que está escrito vai ser surpreendido pela morte. Os uivos dos anjos elevam-se no ar como se fossem granadas de medo. As raízes do tempo dissolvem-se na sua própria humidade. A ferocidade que nos assiste brilha por cima das lágrimas escuras. O vento serve-nos de alimento. Cassandra passeia pelo futuro expondo os seus seios e a sua vagina rigorosa. O seu sorriso é ao mesmo tempo leve e simétrico. Sobre ela, o pintor exerce a sua arte subtil. A prodigalidade das suas mentiras ainda hoje nos assusta. A saudade agarra-me pelos braços e transporta-me até ao último dia do último outono. Os nossos olhos alcançaram a cintilação sobrenatural das alvoradas brumosas. As aves atiravam-se de encontro às correntes de ar. A sua beleza era cinzenta. Por isso dizem que o paraíso é verde, que lá as árvores se abrem ao meio. Afinal, o equilíbrio do mundo depende mais da vontade do que da verdade. Afinal, é frágil a linha que distingue o instinto da loucura. A arte poética anda à procura de uma nova teoria geral do Universo e da Vida. Dizem que os versos se devem desligar dos poemas, como se fosse possível desligar os rostos do percurso teórico que lhes deu vida. São cada vez mais raras as nuvens que se deixam dissipar pelo vento, expandindo-se pela vastidão branca do tempo. A solidão das divindades é agora mais ruidosa. É tão fria que corta os lábios pela metade. O vazio passou a ser visível, a transformar-se em outro valor, a viver da sua própria ausência. Nada na vida é absolutamente necessário. Daí a possibilidade de mudar de instante sem que a referência seja eminentemente poética. Os poemas substituem-se por si próprios, repetem-se nas páginas, adquirem caraterísticas tão exíguas como a luz do entardecer. As máquinas iniciaram a produção de cores nunca vistas. Sinto o momento exato em que a luz da manhã atinge o mar. Os pássaros parecem flores que abrem por dentro. A vida decorre em momentos vagarosos. Os velhos murmuram os seus monólogos. Os gestos ficam mais vagarosos, as palavras demoram mais tempo a chegar-nos à boca. Nasci numa época de preocupação em que os valores valiam menos do que o equilíbrio das almas. A pobreza também era de ideias. Davam-se passos certos na direção da ignorância dos antigos mestres.  Iluminavam-se os caminhos com formas extremas de humilhação. As bocas torciam-se quando nos ríamos. Voltei agora a esse abismo. O brilho apaga-se-me na palma das mãos. O génio já não arde dentro dos nossos corações. Retomo, sem querer, a declinação do meu próprio corpo.


publicado por João Madureira às 07:15
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