Quinta-feira, 7 de Junho de 2018

Poema Infinito (408): O princípio dos dilúvios

 

 

Já me adaptei à ideia do Dilúvio. Noé continua a ondular dentro da sua campânula de madeira. O arco-íris adquiriu a forma de teia de aranha. As flores escondem dentro de si as cores para não serem olhadas e cortadas. Desenham-se novas ruas, constroem-se novos degraus para se subir às casas. As crianças parecem feitas de vidro, já não se confiam às comunhões, nem se aproximam dos altares. Raios e trovões rolam pelo meio das nuvens. Tentam aprender aquilo que nós decidimos ignorar. As mais nobres fábulas deixaram de fazer sentido. Os nomes tornaram-se mais agressivos. Na orla da floresta ajoelham-se os anjos, as sombras ficaram nuas, no lado do poente as crianças transformam-se em príncipes e princesas adoentados pelo tédio. Os sonhos das raparigas tilintam. Diversos animais circulam em volta dos moinhos. A minha mãe continua a pontear o pano da eternidade com as suas lágrimas. Os ramos e a chuva batem nas janelas da biblioteca. Junto ao açude, o mundo parece que avança, apesar do ar estar agora imóvel. Os pássaros calcorreiam o céu. O candeeiro ilumina o livro que releio. Entre as casas existe uma enorme distância preenchida pela bruma. A espessura do tempo transforma os abismos em marés profundas. Sou um mestre de silêncio. Junto ao rio reúnem-se os duendes filhos da lua e dos cometas. Perto do castelo, os poços incendeiam-se. Escrevem-se novas fábulas. Aborrecem-se os príncipes com a sua própria vulgaridade. Os poetas dedicam-se a aperfeiçoar as generosidades mais vulgares. Todos desesperam por amar, por decidir espantosas revoluções. Dizem aspirar à verdade. O vasto poder humano baseia-se no desejo. Está na hora de mandar incendiar os palácios. Degolam-se os animais de luxo. As multidões entram na cidade através do buraco que fizeram na muralha. A destruição rejuvenesce a crueldade. Os príncipes mais velhos morrem dentro dos seus próprios palácios porque deixaram de conseguir ter o desejo que a música sábia lhes transmitia. A necessidade do amor é fabricada por uma nova consciência. Os olhos dos homens mais maduros estão agora mais vagos. Os espaços mais largos do tempo enchem-se de semideuses espirituais, de molochs, de demónios sinistros. A terra santa está repleta de enormes avenidas. Os terraços dos templos desabaram. Observo a história como o fazem os exilados. Já não consigo desdenhar do caos como fazia antigamente. O desejo é agora mais dramático. Já nem a memória da infância me emociona. Tudo parece a continuação de algo que nunca aconteceu. Uma revoada de pombos atrapalhou-nos os pensamentos. Observo calado uma nova descontinuidade do tempo. Trocamos carícias com as mãos como se fossemos de novo para o exílio. Antigamente diziam que a alegria era divina, que o ceticismo alimentava o perigo. Sinto apenas que a ânsia é mais austera. Os tambores disparam sons. Os violinos inauguram uma nova harmonia. Sublevam-se os homens por causa do seu próprio destino. Dizem que se pode atirar o amor pela janela. Eu penso que é a sua indiferença que nos torna infelizes. As bruxas voltaram a reunir-se junto ao campanário. O vento cobre os atalhos do tempo. As pontes da aldeia ostentam as suas ruínas.  A água e a tristeza correm juntas no leito do rio. É a nossa necessidade líquida o que origina o princípio dos dilúvios.


publicado por João Madureira às 07:15
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