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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

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14
Jun18

Poema Infinito (409): Explosão

João Madureira

 

Lembro-me do interior do comboio e da explosão do choro familiar. O calor insuportável dos sentimentos fez-nos gelar os ossos. Agora é apenas um fenómeno de matéria transformada em luz. E depois em escuridão. Senti então o comboio a vibrar. Chegada a casa dos meus avós, a minha mãe atirou-se ao chão, naquela abençoada terra que estava possuída pela tristeza. Senti que em breve a terra deixaria de ser minha. O comboio explodiu dentro da minha cabeça. Depois do enterro, nada mais restou senão partir. No entanto, as coisas do mundo continuavam em mim com muita força: o alarido das crianças, os passarinhos a saltitarem através da neve ligeira de dezembro empurrada pelo vento, o amistoso calor da fogueira de casa onde os potes fumegavam, a luz da candeia inclinando as sombras que colidiam com o meu medo, o relógio de sol parado no tempo, a visita dos pássaros ao alto da torre do castelo, a água fresca da bilha em pleno verão bebida sofregamente pelo copo de lata. E também secar com a toalha o torso e os membros depois do banho na bacia grande e a roupa colada ao corpo a seguir a uma chuvada de junho. E as pérolas que eram berlindes. E os botões que eram moedas. E o espeto. E o pião. E a bilharda. E também o desejo. E a boa sorte. E alguém a lembrar-se de escrever sobre alguém que escreve. E os olhos perfurantes de alguém que repara que não estamos à vontade. E também a descoberta com o olhar de um ninho enquanto corremos atrasados para a sala de aula onde está sempre presente o cheiro a giz e a escalfeta. E os estorninhos em revoada pelos céus, o treino no chão, o som da nossa respiração ofegante por corrermos atrás do chamamento da mãe. E também o modo como a humidade nos olhos deixava ainda mais tremeluzente o extensíssimo campo de estrelas no céu e a dor nos pés de jogar futebol e o tal coração desenhado no vapor da nossa respiração espalmada nos vidros frios da janela em memória de quem amamos. E ainda atar os sapatos e dar um nó na corda do embrulho que vamos enviar para África onde os tios defendem Deus, a Pátria e a Autoridade. E sentir a mão da avó e a mão da mãe e a mão da nossa namorada e sentir o desejo do fim do dia e o começo do dia seguinte e sentir que teremos sempre mais um dia à nossa frente. Mas um dia vamos ter de dizer adeus a tudo isso. Chegam agora os gritos das corujas no escuro, as cãibras nas pernas na primavera, as massagens nas costas, os comprimidos tomados no início e no fim do dia. E então voltamos a lembrar-nos do gato com as patas traseiras paralisadas, o rascar das patas de frente do boi do povo, o vale coberto de nuvens rasgando-se ao meio pelo nascer do sol, as persianas das janelas que coam a luz intensa da manhã, a ferida da memória que nos dói, o que vimos, o que não vimos, o que nos resta de escolha. E ainda nos fere a incredulidade do tempo e o seu abrandamento, as águas vagarosas do rio, o caldo de energia, a perda dos nossos entes queridos, o instantâneo transbordar dos pensamentos, a excitação das bocas, o clarão da luz, a fraqueza dos corpos, a oração matinal do sol, a recuperação dos movimentos primordiais, a longa e triste eternidade das noites, a paciência em estado puro, a conveniência do amor, os sonhos tocados pela sinceridade, a boca ávida, as faces coradas, o sexo em riste. A inspiração e o fornicação são cada vez mais custosas.

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