Quinta-feira, 21 de Junho de 2018

Poema Infinito (410): Indulgências

 

 

Ali está o velho pinheiro mutilado pela tempestade de outono. Ali está o velho tempo sem tempo para ser novo. Por vezes, o tempo envelhece subitamente como se quisesse morrer.  O casebre onde nos recolhíamos da chuva e das tempestades lá continua na outra vertente, de costas voltadas para a aldeia. Tal como o casebre, também a minha memória está vazia. Os sentimentos são como visões, deixaram de ser abstratos. A solidariedade do mal continua a meter-me medo. Parece que Deus agora se contenta em plagiar o Demónio. Nada satisfaz a feroz ironia do abismo. Dizem que o Demónio, como uma espécie de Deus invertido, devora imediatamente os seus crimes e transforma-os em eterna mobilidade. O ar sereno da noite deixa-nos ouvir distintamente os quartos de hora no relógio da aldeia. O tédio devora as palavras exatas, consome o tempo, faz a água dos rios fumegar. A aldeia afunda-se na solidão. As crianças já não regressam à escola com os livros na sacola. A aldeia espera o seu enterro. Os sorrisos dos velhos já não enganam. As horas são de uma certeza mortal. O silêncio é perfeito. Só a presença da incerteza divina continua a devorar os séculos e as suas improváveis consequências.  Continua a armazenar-se o vinho para dar cor à inconsciência. As brincadeiras transformaram-se em negócio. Dizem por aí que se devem prolongar as experiências para tranquilizar o tempo, para batizar a vergonha, para fixar a atenção, para serenar a consciência, para que o rigor deixe de ser inflexível. Lembro-me que fiz de ternura o meu primeiro esforço, que procurei na coragem o meu primeiro equilíbrio, que incorporei o sofrimento, que absorvi a primeira comunhão como a minha primeira indulgência. Comecei depois a protestar de alto a baixo. Não vale a pena ler os melhores livros se não fizermos um esforço por os compreender. Os sonhos de agora surgem em nós com a forma de conselhos, em forma de palavra de honra, cobertos de poeira, coroando as cabeças como se fossem o mesmíssimo Espírito Santo descendo sobre os apóstolos. E lá reluzem os erros e os anjos mais sólidos e os relicários das ideias dos poetas. A ilusão ainda é a mesma. A ilusão é eterna. Com a mania de darem cabo do Diabo, ainda vamos ficar sem Deus. Os imbecis ainda procuram misticismo nos lírios ou a inquietação em flores de papel. De nada lhes serve o calor do heroísmo. São ingénuos, dizem os ingénuos. Dizem que a música é uma espécie de verdade e que a verdade é uma espécie de música. Eu não acredito nessa segurança recíproca. É preciso trepar um pouco mais acima. Onde se põe agora o menino Jesus, onde se coloca a vaca, onde se instala o burrinho? Onde caralho se põem os reis magos e os pastores? O presépio já não tranquiliza ninguém, nem as bochechas rosadas do filho de Deus. José deu em bebedor. E a mãe do divino ser já não sai do casebre. As santas beatas continuam a assustá-la com a sua voz esganiçada. As palavras são uma nova forma de contrariedade. A tradição vem sempre fora de tempo. E a evolução é uma forma de angústia. O tempo da infância, de tão doce, tornou-se amargo. Agarramo-nos à vida como se ela fosse uma tábua algorítmica. Mas, todos o sabemos, não se podem calcular os milagres. Nem a inspiração. Nem a saudade. Os velhos parecem crianças enjeitadas, por isso a esperança vem-lhes em forma de espera. E quem espera...


publicado por João Madureira às 07:15
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