Quinta-feira, 5 de Julho de 2018

Poema Infinito (412): O sexo das estrelas

 

Há mulheres que são como contos tristes. São continuações do fim do mundo, apesar de terem nascido como belas princesas acordadas e de acariciarem peixes dentro da água. Sete rios regam agora os campos fazendo com que os versos nasçam verdes. As meninas metem-se dentro de água centímetro a centímetro, tomando consciência da textura dos seus corpos, das fendas, das partes religiosas dos seus sexos. Os rapazes jogam às escondidas, fecham-se dentro da sua inocência, recortam com o olhar as formas das raparigas, o comprimento dos seus cabelos, as pontas das saias, as mãos, os pés, a calibração dos seus seios. E apanham peixes e lutam corpo a corpo. Têm sempre medo de chegar ao fim. As meninas livram-se então dos alívios. A adolescência é uma estação irreversível sem nada lá dentro. É nessa altura que se começa a sentir o tempo a doer, começam então as avós a pegar nos polegares das meninas, a adormecer junto à lareira, a acender o lume pela manhã, a fazer o jantar, a cozinhar legumes, carne e as ideias mais crepusculares. Explicam a maneira de se ir buscar lenha ao monte, de ordenhar as vacas, de dar de comer aos parricos, às pitas e aos coelhos, de pentear o cabelo, de acomodar os seios, de enfiar a aliança no anelar esquerdo. Por vezes, os contactos com o mundo são estranhos. As madrinhas são pesarosas e as afilhadas são prendadas. Por isso as ensinam como cortar, polir e envernizar as unhas. Como lustrar a vida. Como limar o tempo, a paciência, os olhares e as maneiras. Como tonificar as mamas, as nádegas, as coxas e as vaginas. As avós explicam às netas que tudo é reversível, sabendo que afinal é tudo ao contrário. Tudo o que é possível é irreversível. As meninas aprendem a bordar os nomes e a fazer fé na aplicação da juventude. Dizem-lhes que o sexo dos rapazes é como uma serpente venenosa que as pode matar se a deixarem tocar-lhes. Depois falam-lhes do esplendor das panelas, dos panos brancos de linho, do mal olhado, da vida cheia de desilusões e da infidelidade dos gatos. E começam a convidar os amigos das meninas, a explicar a necessidade de aspirar a sala, de suportar as pessoas à distância e a hierarquia das preferências à mesa. Queima-lhes no cérebro a ideia de serem objetos sexuais, de evitar os sutiãs sem alcinhas e das cuecas rendadas. Avisam-nas do perigo de subir degraus com saias, de gritarem quando têm uma ideia ou um orgasmo. O melhor é ser intocável, pois a virgindade é uma joia rara. Tudo o que se lambe deve ser objeto de uma cuidadosa encenação. Falam-lhes da necessidade dos brincos faustosos, das coleiras de rubis, dos broches trabalhados. Depois, as meninas sonham em escrever novelas românticas, cheias de beijos, canções e versos tão perfeitos como príncipes. Aprendem que nunca devem deixar de ser crianças até ao momento doloroso de parirem uma. Finalmente devem dedicar-se aos filhos, tendo como exemplo as mães e as mães das mães e as mães das mães das mães. Surgem então nas casas os vasos de flores e a prudência das noites em vigília para acordarem ao mesmo tempo que os filhos. Pegam então nas mãos dos filhos e vão saciar os passeios e deixá-los fazer tudo nos jardins. Por vezes, as flores murcham ou os vasos partem-se. A mãe chora e o pai bate com as portas. A partir daí as mães começaram a interessar-se pelo firmamento e a lembrar-se de quando viram as primeiras estrelas, o primeiro rapaz. O avistamento das estrelas passa então a constituir o seu principal propósito. Tomam banhos quentes seguindo o que as avós lhes ensinaram, aguentando a dificuldade do calor, estudando a textura das tetas ou lembrando o batismo de Jesus nas águas do rio Jordão. Deixam de pressentir o sexo. Passam a gerir apenas a sua função. Lambem as feridas. Deixam-se levar pela tristeza. Deixam-se levar. Transformam-se em bichos da seda.


publicado por João Madureira às 07:15
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