Quinta-feira, 12 de Julho de 2018

Poema Infinito (413): A maneira da luz

 

 

O teu olhar costuma acalmar a minha tempestade, dominar os ventos que nascem dentro de mim, acalmar as minhas marés interiores e deixa continuar a brilhar os pontos de sol que por vezes se refletem dentro da minha alma. É comovente a minha capacidade de te amar. Mesmo fustigados pelo vento, os frutos renascem devagar, desprendendo-se dos ramos das nossas mãos. Brisas poderosas anunciam maravilhas. O odor das camélias invade o jardim e a nossa nudez que por ali passeia. As palavras sagradas transformam-se em pétalas. Ou em pão. Ou em mentiras piedosas. No entanto, as crianças continuam a beber a água pura nos fontanários das praças. As suas mãos parecem taças douradas pelo sol. Desenhaste o teu corpo dentro dos meus olhos. Agora eles são como lagoas luminosas. Nas encostas da montanha, as uvas amadurecem ao sol. O amor é uma nova construção, uma nova estrada. Abraço-te com o mesmo carinho com que se fazem as curvas dos caminhos mais apertados. A arte está na forma de tecer a manhã, na melancolia entusiástica da aprendizagem, na medição dos sonhos, no entendimento dos segredos e na compreensão dos sorrisos. Gosto da acidez da tua pele, do calor dos teus lábios e do sabor perpétuo da ideia do paraíso. Cada vez renascemos mais devagar, como as flores trazidas pelo vento, como o pólen revelado pelo segredo da fecundação. Reaparecemos vagarosamente, como as brisas poderosas, como os gestos das crianças invadindo os jardins, apanhando as lágrimas depositadas pela chuva nas pétalas das flores. Pousamos então olhar nas árvores mais direitas que nos permitem fixar o deslumbramento das paisagens e recitar as preces da alegria em nome da terra abençoada. As flores não são abstrações, assim como os frutos são sempre a possibilidade feroz de uma outra árvore. A memória é outro tipo de ilusão. O brilho da noite orienta-me nos caminhos do teu corpo. Nele tateio a esperança. Uma língua de fogo transforma o corpo em desejo. Cobrem-se os corpos de beijos e os poemas de versos. O desejo é uma outra forma de esperança. Recolho-me dentro de ti e adormeço. As mãos reproduzem o firmamento, o corpo reflete calor, os teus olhos iluminam a noite. Repetes a palavra “amor” até ela fazer sentido. Dizes que existem palavras tão grandes como “amor”, palavras que possuem o mesmo sentido grandioso: imensidão, essência, eternidade, plenitude. E outras que evidenciam um sentimento único e verdadeiro: idealista, íntegro, renovador, precioso. E ainda outras que simbolizam a continuidade e a regeneração: profundidade, harmonia, envolvência, posteridade. A musicalidade da tua voz abre sulcos no meu corpo, deixando nele linhas incandescentes, onde depois o silêncio semeia a verdade. O nosso olhar fica fixo e cristalino. Os gestos são agora mais tranquilos, cingem o meu ao teu corpo. Lá fora, o rio transborda de vida e as árvores enchem-se de frutos. Cá dentro, as nossas bocas definem as memórias mais íntimas. Procurei as ondas do mar nos teus olhos. Sonhei que chegavas radiante de alegria e com as tuas mãos carregadas de espigas. Depois subimos a montanha transportando o elmo de ouro. O azul iluminava o céu. A razão reconstrói sempre a vida. Há quem se entretenha cantando a beleza que dizem eterna. Eu apenas colho o rosmaninho junto ao rio e busco a nossa barca do destino.


publicado por João Madureira às 07:15
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