Quinta-feira, 2 de Agosto de 2018

Poema Infinito (416): Luminosidades

 

 

Na superfície tudo ecoa. Os mergulhos noturnos possuem outra dimensão e distinta profundidade.  Quando chego, tudo aparece. As chamas são profundas. A necessidade não é necessária. Chego antes de ter chegado. Parto antes de ter partido. Pareço um espírito inquieto. As perguntas sobrevoam os mapas. As antigas aventuras evidenciam destinos novos. Já perdemos muitos passos em direções estranhas. Não são estas as perguntas que procurámos. As dúvidas continuam cansativas, são uma espécie de deceção noturna. As sereias já não cantam, apenas nadam em volta de nada. Muitos dias nascem já quebrados, as suas fissuras são demasiado evidentes. Neles estremecem as neblinas. No entanto, os desejos em vez de se apagarem sopram tudo. Existe dentro de nós uma nova psicologia que modela os espaços, que comove a inteligência, que trabalha rapidamente a arte, que nos ergue da depressão, que nos ventila a subtileza. O lugar da alma cresce em altura. As sombras levantam-se do chão. Os movimentos penetram nas zonas mais apertadas. O desejo parece uma vegetação rasteira clarificando a irredutibilidade dos sexos. A vida por vezes magoa, mas cresce em forma de furor, assustando as insígnias, manchando a excitação, remexendo tudo aquilo que mais magoa. Ninguém nega para perder. Não é esta ainda a hora da clemência, nem o momento de erguer a taça do festim contínuo dos desvanecimentos. Por vezes, até a determinação assina com o nome da descrença. Continuamos a confundir o brilho com a velocidade contrária dos objetos. A inocência nega tudo mas incomoda os julgadores. Os dissidentes continuam a contar as armas e a sonhar com as colisões que geram mundos e com reinos estranhos e insistem nos erros que provocam os clarões das guerras e na violência gerada pelas bandeiras. Insistem também em cortar as perguntas, em gritar pelos demónios, em complicar a arte singela da modéstia. Agitam o povo como se ele fosse apenas uma palavra totalitária. Perdem-se nas vigílias e na luz dissipada dos sonhos incongruentes. Não querem acreditar que o seu tempo e a sua razão também se apagam. A sua força abre feridas que provocam fugas e labirintos e túneis emaranhados. O líder esqueceu-se voluntariamente de os avisar que são os velhos crimes que iniciam os novos tempos. A inteligência entrega-se sempre à divergência em velocidade múltipla. Depois recolhe os despojos deixados pelas ondas de choque provocadas pelas acelerações. A vontade também se pode negar. Dizem que é preciso olhar para o outro lado. Dizem que existem outras passagens. Há quem se redima pelo sofrimento. Outros preferem o esquecimento. Outros, ainda, não preferem nada. Não é tarefa fácil alcançar o que cada um vê. O vento persegue as velhas cinzas. Penso que conheço alguns pormenores da existência, alguns dos seus espaços diminutos: o portal dos desejos, as covas do monte onde se drena alguma água, os dias em que a natureza se cala, o bater das asas dos pássaros que se enganaram no voo e foram ter ao mundo errado, o peso da vontade, o brilho estranho da exaustão. Percebo a escrita da chuva nos jardins, o repouso dos cedros nas alamedas, o medo dos gravetos, a tristeza dos muros verdes, os corpos indefesos e as boas intenções. A realidade demarca o seu próprio território. Sei que os horizontes iludem, mas não costumo enganar-me na direção a tomar. Sei de cor a sombra exata de uma cruz. Já não me assusto quando o céu se inunda de nuvens. Na penumbra, o tremor da luz é difuso. Decidi há muito virar o rosto para o lado luminoso da existência apesar de saber da forte possibilidade de cegar.


publicado por João Madureira às 07:15
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