Quinta-feira, 9 de Agosto de 2018

Poema Infinito (417): O movimento vagaroso dos salmos

 

 

Oiço os salmos dos monges e vejo-os com os seus capuzes abatidos. Apesar disso, as suas caras fazem-me lembrar o rosto gloriosamente calmo do São Sebastião pintado no teto da igreja da minha aldeia. Ao longe, os latidos dos cães parecem os pecados esquecidos por Deus. Já se perdeu no tempo a voz da avó que parecia feita de linho. No sonho, os anjos banqueteiam-se, regozijando-se com a sua condição alada, escondendo os remorsos fatais da salvação. No povo, acendem-se os archotes. Os peixes recolhem-se no fundo das águas do rio. As mortes continuam carregadas de flores. As máquinas continuam a mover-se devagar, nem parece que foram afinadas por Deus. A dor é regada com lágrimas. Tudo o que é belo está no lado de lá do rio: as vozes, o seu eco, o sol, as espigas, a comoção, o doce preço das brigas, a força da bondade, o gume agreste do tempo, todos os cânticos do prazer. O calor da vida começa a esfriar. No entanto, a luz é mais precisa. O Verbo de Deus já não nos dá muita esperança. É tempo de depor o que os outros puseram. A fé é uma forma de doença benigna, que não provoca dor mas faz atrasar o tempo. A água que move a vida faz também mover o moinho. Sabe-nos a boca a fogo. O clamor dos abismos continua a ser atraente. A angústia escorre silenciosamente pelas paredes da casa. Já não consigo ouvir os nomes, apenas o seu eco e o vento que dá nas folhas. Os olhares dobram-se  e inclinam-se sobre as flores. Dizem que Eva deixou de chorar. Encontrou finalmente o seu paraíso perdido. O medo responde ao seu próprio susto. Espero pelo verde, pelo seu sossego, pela sua necessidade, pela sua coerência. Todo o amor é uma forma de absurdo necessário, assim como a razão é uma forma de delírio. Equivocou-se Deus em ser único e também em limpar o lodo com que fez Adão. Assim foi declinado o mal, assim nasceram as parábolas e as fábulas e a doença das palavras. Os segredos continuam a ser feitos de sílabas sagradas. As noites fecham agora mais cedo e as auroras rompem mais leves. Foi cedo que encontrei a minha voz na sombra dos arvoredos. A palavra dada será sempre para mim a honra. Escrevo como quem começa a arder, adormecendo depois no entendimento das palavras. Existo dentro da casa da língua portuguesa, demorando os nomes, rompendo as origens, incendiando os hábitos verbais. Os homens invocam o futuro, velam os abismos, nomeiam as coisas, bradam pelo fogo, chamam os deuses, prolongam o vácuo, o mar e os pequenos sinais astrais. Há um muro temporal que divide o crepúsculo, que doma as palavras, que resume Cristo à sua coroa de espinhos. Tudo o que é divino é feito com traços de fogo. O silêncio acende a luz com que se preservam as palavras. Os anjos atraem a morte. Os caminhos da manhã são abertos com os sons da flauta do pastor. O seu rebanho enche a fotografia de poalha. O poeta carrega tudo: o ar pasmado da aldeia, a força sem sentido dos animais, o fogo roubado, a espera dos soldados pela guerra, a coragem das sentenças, as madrugadas álgidas em que chora lágrimas do tempo da desilusão. O forno já não coze o pão, nem a avó semeia a esperança nos dias, nem os lameiros estendem o seu perfume. As aves voam agora de forma mais grossa. Os dias nascem enganados, sem propósito. Caim ficou branco como a cal. O ar cheira a incenso. O homem absurdo de Kafka prossegue a sua esperança pela eternidade. Peço aos mais velhos o sabor das suas palavras. Os remorsos estão em brasa. Glória aos deuses da boa vontade.


publicado por João Madureira às 07:15
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