Quinta-feira, 16 de Agosto de 2018

Poema Infinito (418): O juízo e o seu reflexo

 

 

 

Rio do suposto juízo de Rubens, do seu barroco lânguido, das suas formas enseadas, na frescura impossível do amor e da vida que corre sem cessar. O céu está agora no lugar do mar. O espelho grande absorve todo o Leonardo da Vinci, os seus anjos deliciosos com sorrisos de demónios e as sombras misteriosas dos sorrisos femininos. Rembrandt parece a cruz do seu próprio mundo, cheio de murmúrios, repleto de preces e choros e raios de sol transversais. Miguel Ângelo também deve andar por aí, misturado com Hércules e Cristo e outros fantasmas que se erguem tentando impor a sua própria soberania diante da luz divina. Por aí andam ainda os faunos, com os seus corpos franzinos, com a sua bondade altiva, com a melancolia soberana dos proscritos, com a beleza dos patifes. Watteau dança misturando no seu carnaval os mais ilustres arlequins, as cenografias mais despojadas, as borboletas mais flamejantes, tudo iluminado pelo desvario e pelos bailarinos risonhos. Goya assusta-se, e assusta-me, com os seus pesadelos, com os seus cenários dantescos, com o reflexo das velhas ao espelho, com crianças vestidas de antiguidades sexuais ajeitando as meias como se fossem anjos do deboche. Tentam dessa forma o inimigo. Delacroix continua a pintar anjos maus à sombra dos pinheiros envolvendo-os de verde e de céus lamentosos e de fanfarras estranhas que passam por nós como se fossem suspiros de Deus e do Demónio. Envolve tudo na beleza dos deserdados, na imprudência dos guerreiros, na sua bondade altiva e na melancolia soberana dos proscritos. A musa de Baudelaire continua de cama, doente, com os seus olhos cavados marejados de visões noturnas. O amor e o medo são os seus principais pesadelos. A musa venal continua puta e com os peitos espetados como a República. As brasas aquecem-lhe as coxas, o traseiro e o sexo. Raios de luar atravessam as persianas dando sentido ao vazio ascético da sala. Os frades fantasiaram os antigos claustros com a realidade mais cruel. Pensam confortar as mulheres devotas, tornando quente a sua piedade. Os homens estão tristes porque o granizo queimou as flores das árvores de fruto, deixando-as sem viço e sem cor. O outono chega de mansinho. É tempo de pegar no sacho e no engaço, de mexer na fecundidade da terra, de abrir fendas para a água passar. O tempo dói. A entropia dói. Os sonhos místicos nascerão leves. É chegado o tempo de descobrir os tesouros escondidos e de erguer uma outra vontade. Sinto ainda mais forte a profunda solidão das ondas, as criptas dramáticas onde se sepultam os anjos, o lento sacrilégio do poente, a inutilidade espantosa da música lucidamente elaborada. O céu está carregado de nostalgia. O mar reflete a luz da liberdade. Não nos cansamos de contemplar a infinita oscilação da sua rebentação. O pescador agarra com ímpeto vingador os remos. As sereias tornaram a furar-lhe as redes. Na praia, várias mulheres oferecem aos olhares dos transeuntes os seios através dos vestidos entreabertos. Dizem que Don Juan foi para o inferno porque se fartou do amor das mulheres atrativas. A vergonha reclamou os seus honorários. Dizem que as suas amantes exibem agora um sorriso sublime onde brilha a meiguice e as primeiras juras de amor eterno. Já não lhes interessa o seu sexo ereto que as fendia. Os seus bocejos tragam o mundo e o tempo.


publicado por João Madureira às 07:15
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