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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

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30
Ago18

Poema Infinito (420): As três lágrimas

João Madureira

 

 

A neve cobriu a soleira da porta e tudo o resto ao redor. Nada possui agora o seu aspeto real. Por baixo da alvura dormem as giestas e as pedras da calçada. Apenas o vestígio de um trilho direciona o nosso olhar. Esta brancura intensa estende-se até ao infinito. Dentro das casas perdura a penumbra, a sonolência. O vagar. Faço agora o inventário do tempo. O avô resmunga qualquer coisa incompreensível. São os ecos das velhas disputas de outrora. Continua com a sua paixão pelas ferramentas, guardando-as ciosamente na loja. A avó acende a lareira e fala de novo na sua juventude desgraçada. Sobretudo no frio. A avó cala-se de repente como se as suas palavras fossem uma forma de repreensão familiar. O vento não augura nada de bom. O trabalho continua, apesar dos gestos fastidiosos das rotinas. Até os olhares parecem reprimendas. A representação da vida continua a triunfar. É isto o que os faz andar pelos caminhos do tempo. O avô torce as memórias com o seu alicate mais antigo. Depois regista-as em pequenos montes em cima da banca. Vê-lo e ouvi-lo enche-nos de ânimo. Mesmo sem querer, lá vai virando a vida e fazendo as suas contas. E conta histórias. Algumas pela terceira ou quarta vez. Recordo-o ainda lento e digno, apaixonado pela própria lentidão. Fala de viagens de meses inteiros onde gastava tudo o que tinha. Chegava mesmo a endividar-se por não conseguir acabar nenhum trabalho. Muito trabalha o burro do moleiro, dizia ele, para nada ter. A ventura e a desventura resultam sempre de um encontro de circunstâncias. O poder, na sua altura, não conseguia distinguir lá muito bem um justo de um culpado. Era tudo muito lento: a paixão, a dignidade, o conhecimento, a escrita. A polícia seguia sempre a sua lógica que não era lógica nenhuma. Todos pareciam falar de uma maneira arrebatada. Falava-se por fragmentos e paulatinamente. Todos os interlocutores aparentavam estar doentes. Os seus pensamentos pareciam sofrer de uma dor física permanente. O tempo, por vezes, deixava de fazer sentido. Era então quando o avô voltava às sua histórias, interrompendo-as, continuando-as, repetindo-as, andando nelas de trás para a frente e de frente para trás, completando algumas já depois de as ter terminado. As mais fáceis ampliava-as e depois explicava-as, para parecerem difíceis. A sua verdade, graças a essa maneira peculiar de contar, ficava muito vazia. Quando alguém o questionava acerca das lacunas, a avó metia-se de permeio e dizia que era melhor deixar falar o avô à vontade. Lá na aldeia, a suspeição é uma forma de culpa. A suspeita costuma chegar de longe e atingir profundidade e amplitude. Em Constantinopla, dizia o avô, existe o princípio sagrado de que é mais fácil libertar um inocente do Pátio Maldito do que andar à procura de um culpado pelos meandros da cidade. Por isso é que o Pátio se enche e se esvazia e se volta a encher sem cessar. O avô contava que o seu avô contava sempre as mesmas coisas, exagerando-as e multiplicando-as de tal maneira que seriam necessárias duas vidas para viver tudo aquilo. Todos os avôs são assim.  O exagero era a sua forma de honestidade. As paredes da velha casa ainda guardam os segredos da sua voz alta e ciosa, apesar de o inventário da sua memória ser agora um pouco mais frio. Por isso a avó acende a lareira e chora três lágrimas grossas.

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