Quinta-feira, 27 de Setembro de 2018

Poema Infinito (424): A rapidez

 

 

Os meus dedos amam tanto a madeira desta mesa como os dedos da minha avó amavam a farinha que misturava na masseira que havia no fundo da cozinha lá de casa. O princípio é o mesmo. O fim também terá a mesma uniformidade. O suor do rosto aquece o lado nascente da solidão e do riso. O riso também nasce do sofrimento. O chão reflete as pessoas. O sol ergue-se. Os dedos das mãos estão do lado do coração. As pessoas também necessitam de voar. Todo o ser humano começa por ser invisível. Por vezes esconde-se muito perto daquilo que diz. E da fome. E dos seus sonhos de amor. E de todas as coisas impossíveis. E de toda a eternidade. Por vezes encontra o lugar perfeito para se deitar e ouvir os pensamentos. E os pássaros. E a água que corre aflita por ser tão pouca. Ou tanta. O mundo cresce de forma sexuada, vibrante, como se a memória fizesse parte do infinito. As coisas que menos amamos acabam sempre por nos vencer. Os lugares podem ser ditos, os sonhos não. A beleza e a tristeza acabam sempre por causar excessos. São como a utilidade prática da arte. Os néscios também afirmam que o amor é invencível e que a irmandade dos homens é capaz de construir um mundo novo. Ou melhor. Cada um acredita naquilo que lhe permitem. Porventura chegarão os amanhãs que cantam, mas só quando nós e eles formos outros. A noite guarda-nos da visibilidade. Começamos a partir desde o momento em que chegamos à luz. Todos vamos a Santiago, vivos ou mortos, garantia a avó. Mas os turistas de agora preferem rumar à Grécia para verem onde nasceu a sua extinção. O vértice dos templos tem milhares de anos. Já os vértices das pedras com que foram construídos surgiram há milhões de anos. Mesmo as estrelas se perderão no futuro, pensava a avó sem saber muito bem naquilo que pensava. Os olhos sabem distinguir as diferentes formas de amar. Herodes não suportava quem calçava sandálias. Nem crianças. Nem burros. Nem alforges. E muito menos quem usava bordão e saco a tiracolo. Os mestres de agora rumam a estâncias balneares para não se sentirem menosprezados. Carregam na indiferença, nos utensílios, nos passos necessários e nos botões das máquinas fotográficas. Gostam de entreter as mãos a comer e a coçar as partes antigamente consideradas íntimas. As suas bocas estão finalmente cheias. Quando se está mais longe das cidades é que nos apercebemos que foram construídas às cegas. Nas novas madrugadas nem as trevas rebentam, nem a luz ascende. As mulheres já não lavam, nem cantam, nem rezam. São até raras as que copulam com prazer. Ou em busca dele. Já ninguém fala de amor, apesar de todos lhe sentirem a falta. Até as representações dos pássaros a voarem de um lado para o outro nos parecem terroristas. É perfeitamente dispensável a causa da liberdade. Os homens que aprendam a voar, caralho. Que aprendam a enormíssima arte de voar sem asas. Ninguém sabe onde fica o futuro. Nem a prosa mais arcaica. Nem a poesia mais inteira que se serve com água das pedras e uma rodela de limão. A história dos homens continua a ser a maior arte da inutilidade. Todos os dias vejo pardais espalhados por aí fora. Admiro a coerência dos seus pinchos. Os meus olhos reproduzem, sem querer, o batimento dos seus corações. A consciência da rapidez da sua vida é que atrapalha tudo. Depois limpo as lentes dos óculos com que os observo.


publicado por João Madureira às 07:15
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