Quinta-feira, 4 de Outubro de 2018

Poema Infinito (425): A honestidade

 

 

Lá do alto das montanhas observamos os planaltos resplandecerem ao luar e os carvalhos da floresta a dançar como baluartes. O ar parece a água das nascentes. As casas estão vestidas de memórias com as suas tábuas tranquilas que nos fazem lembrar a nossa mocidade. Os prados deitam-se, ou fazem por isso. A calma e a segurança manifestam-se contra a importância das datas históricas. O dito amor pelas coisas assemelha-se a cestos de flores monocórdicas. Nós andávamos a pé ou de burro e chegávamos sempre a algum lado. Os jovens de agora andam a 180 quilómetros por hora e não chegam a lado nenhum. E nem sequer lhes falta imaginação ou, sequer, conhecimento. No vale cai amiúde a neblina. Debaixo da lua, o manto nebuloso envolve a florestação. Ao lado das ruínas da velha quinta, as antigas flores envolvem as curvas da macieira. Também dizem que o velho abade tinha mãos delicadas, pele fina e macia como porcelana e um semblante espiritual denunciando boa vida. O céu fartou-se de esperar por ele. E do inferno nem é bom falar. Os deuses de agora adquiriram o hábito de estarem de pé com as costas da mão direita apoiadas na anca, mesmo quando são canhotos. A realidade acende a luz de relance recortando a confusão das estrelas. Lá em baixo repousam as pastagens suaves e as casas rurais quase invisíveis. Esta terra continua a ser bondosa, fria e límpida como os raios de luz. A honestidade continua a ser uma espécie de deficiência. Pobres daqueles que não conseguem ter a severa inclinação para prometer operar milagres. Perdoem-me a exceção da verdade, mas a Lusitânia nunca foi um caminho dotado para a Utopia. A última semana de junho foi chuvosa, nada boa para as macieiras em flor. Os lilases murcharam. O inverno queimará as rosas, como todos os anos o faz. Silenciosamente. O avô vai ter de arranjar lenha suficiente para a lareira da casa. Penso isto enquanto me entretenho a fazer uma pequena e infeliz formiga a andar para cima e para baixo num galho partido. A bondade tem destas subtilezas. A trovoada nas montanhas arrasou todas as reuniões públicas. Os doutores do templo arrasaram o discurso em direto de Jesus. As sinfonias de Mozart romperam a escuridão irreal que cobria o mundo e transformaram-se em explosões. A imaginação é dada a grandes fraudes. E lá vêm as fanfarras, os carros alegóricos puxados pelos grandes cartazes e as ovações e os sorrisos benévolos, que se transformarão em homicidas, e o circo e as palhaçadas que vencerão as horas críticas da histeria do politicamente correto. Salve-nos Deus dos homens da Regisconta. Os mestres de cerimónias chegaram a políticos. Vivam os assessores e os filósofos privativos. Vivam as baratas. Deus já não consegue distinguir as pequenas das grandes coisas. E vice-versa. Independentemente de ser tudo ao contrário. Dizem que Chesterton disse, e eu acredito, que existe uma coisa maior do que uma coisa muito grande, e que ela é uma coisa  tão pequena que não pode ser vista nem compreendida. Devemos desconfiar sempre de quem faz vénias sorrindo, enquanto as lágrimas  lhe correm dos luzeiros. As audiências começam, por mais que lhes custe, a soluçar também. Todos aqueles que erguem a mão esticada, ou o punho fechado, apenas evidenciam a ênfase histérica da sua negação. Depois seguem-se os dias e as noites do horror.


publicado por João Madureira às 07:15
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