Quinta-feira, 18 de Outubro de 2018

Poema Infinito (427): O desencanto dos vasos floridos

 

 

Gosto das ruas que descem até aos rios. De todas elas. E dos rios que sobem até às ruas. Nos rios faço exceções. As quintas dos ricos parecem-me sempre gólgotas, os românticos caminhos da morte. Os ingleses parecem-me paredes de granito vestidas com portões verdes sorrindo para meninas pensativas. Sou tão xenófobo que até me rio do Brexit. Para disfarçar leio Saramago, Aquilino, Eça, Ferreira de Castro, Agustina e outras reticências e pontos de exclamação e vírgulas e virgos. Admiro a velha literatura e as novas tecnologias. Fascinam-me até os livros de leitura obrigatória que abrem as caudas dos vestidos das raparigas com pinceladas de perfume. Imagino-me a descer as escadas de pedra antiga, a cruzar os jardins de árvores e canteiros e, de mão dada contigo, a nomear de cábula na mão as japoneiras, os rododendros e araucárias. Não há nada mais ordinário do que descrever as tílias frondosas que deixam tombar os cachos de flores e o seu perfume e a sabedoria pedante das sibilas e das cartas de amor e a Amália e o Eusébio e Fátima e até o Fernando Pessoa. Pois pim para todos eles. E viva o Almada Negreiros. Dizem que os escritores consagrados têm risadas cristalinas. O meu conselho é lê-los. Ou escutá-los. Ou assim-assim. Entediam-me as salas repletas de quadros, de fotografias antigas e de conversas que parecem ocasionais, repletas de miríades de pequenos objetos. Os peitoris das janelas assemelham-se aos livros das estantes, colocados para apoio dos braços que seguram o queixo de quem se põe à janela para conquistar o príncipe desencantado com os vasos floridos, com as épocas inesperadas, com a transparência dos vidros, com as tesouras que antigamente podavam as vinhas e agora cortam os frangos e os leitões. Os vizinhos de hoje são tão chatos como os seus gatos e tão defecadores como os seus cães. Já não há nem homens nem animais vadios. Eu não gosto da Anna Karenina. Eu gosto é da Valentina. Já cada vez menos se varrem as folhas de outono. Agora tudo é soprado por máquinas estrepitosas e depois enviado para a reciclagem. As primaveras têm todas o mesmo cheiro. Todas as rosas possuem as mesmas certezas,. Os lugares míticos possuem todos o mesmo tipo de iluminação.  Com o avançar da idade percebemos melhor Rembrandt, todos nos sentimos rondados pela noite, pelos seus indícios e pelos seus presságios. Todos imaginamos as possibilidades perdidas, as conversas encetadas, os sentimentos exemplares. É preciso vencer a timidez. Depois adoecemos. Toda a caligrafia fina tem o seu sentido oculto. Tudo é evidentemente inócuo. Assustamo-nos com o íntimo das nossas vidas, com as palavras que fecham portas, com a geografia patética dos livros. No apeadeiro onde espero é outubro, o ar está muito quente e há um cheiro paternal a ervas, resina e folhas secas. A sabedoria cria poucos amigos. Aprendi a disfarçar a impaciência. Estou quase em ruínas. Subo as escadas devagar, devagarinho, como quem se confessa perante a força da gravidade. O pátio reflete o sol. Adivinho a chuva que há de cair inclemente durante as horas do desassossego. Estou virado a sul. Quase alegre. Quase triste. Ouço arrepiado os sinos da igreja. O pai e a mãe converteram-se num lugar, num jazigo. Numa dor permanente. Antigamente por aqui havia videiras. E macieiras. E nogueiras. E figueiras. Tudo foi desmantelado. Os remendos rebocados das casas possuem uma aparência fantástica.


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito

.mais sobre mim


. ver perfil

. seguir perfil

. 13 seguidores

.pesquisar

 

.Agosto 2019

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9

15

21
22
23
24

25
26
27
28
29
30
31


.Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

.posts recentes

. Loivos

. 456 - Pérolas e Diamantes...

. No Barroso

. No Barroso

. No Barroso

. Poema Infinito (469): O l...

. No Barroso

. No Barroso

. 455 - Pérolas e Diamantes...

. O cabrito

. No Couto de Dornelas

. ST

. Poema Infinito (468): Voo...

. No Louvre

. O anjinho

. 454 - Pérolas e Diamantes...

. Gente bonita em Chaves

. Luís em Santiago

. No Louvre

. Poema Infinito (467): A a...

. Louvre

. Em Paris

. 453 - Pérolas e Diamantes...

. No Barroso

. Sorriso

. No Barroso

. Poema Infinito (466): Sem...

. Interiores

. No Barroso

. 452 - Pérolas e Diamantes...

. No Barroso

. São Sebastião - Couto Dor...

. No Barroso

. Poema Infinito (465): Dor

. No Barroso

. Misarela

. 451 - Pérolas e Diamantes...

. Feira dos santos

. Na feira

. O pastor

. Poema Infinito (464): A á...

. O homem da concertina

. Notre-Dame de Paris

. 450 - Pérolas e Diamantes...

. Em Lisboa

. Em Lisboa

. Em Lisboa

. Poema Infinito (463): Fix...

. Em Paris

. Em Paris

.arquivos

. Agosto 2019

. Julho 2019

. Junho 2019

. Maio 2019

. Abril 2019

. Março 2019

. Fevereiro 2019

. Janeiro 2019

. Dezembro 2018

. Novembro 2018

. Outubro 2018

. Setembro 2018

. Agosto 2018

. Julho 2018

. Junho 2018

. Maio 2018

. Abril 2018

. Março 2018

. Fevereiro 2018

. Janeiro 2018

. Dezembro 2017

. Novembro 2017

. Outubro 2017

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

.favoritos

. Poema Infinito (404): Cri...

.Visitas

.A Li(n)gar