Quinta-feira, 15 de Novembro de 2018

Poema Infinito (431): A perplexidade dos beijos

 

 

Quantas tristezas necessárias se transformam em humor desenganado. E também a desgraça da vontade de rir. Vivemos no tempo da verdadeira filosofia do corpo. A prostituição assemelha-se a uma telenovela. Aprofunda-se a descrição do pudor, oferece-se a banalidade e os serviços da felicidade. A gente tudo vê e nada entende. Forçamos a verdade até a transformarmos em piada. O humor é a nova definição de amor. Amamos toda a gente e não amamos ninguém. Os humoristas são tristes. Os orgasmos são tristes, parecem uma forma de castração. Deus é triste. Os anjos são tristes. A vida selvagem é triste. A felicidade é triste. Trabalhar é um privilégio, dizem-nos os novos democratas. A nova filosofia dissolve-se em notas, dissolve-nos em compras. É meritória a maneira como esquecemos a infelicidade. Gememos de todas as maneiras possíveis. A bondade está distribuída pelos dois lados: o bom e o mau. A felicidade costuma sentar-se no sofá da mesinha da sala de estar e pôr-se a ver os filmes fraudulentos de Hollywood. As mulheres sentem-se derrotadas. Os homens sentem-se derrotados. Os deuses sentem-se derrotados. O medo é o novo profissional da psicologia. O medo é estranho. O medo é esquisito. O medo é pacífico. O medo é nosso vizinho. O medo é o nosso vizinho. O medo são os outros. O medo somos nós. Abaixo o medo. Viva o medo. Há uma tristeza tranquila nas pessoas estranhas. Como te chamas?, pergunta-me a tristeza. Ela quer falar. Eu não. Não a consigo temer. E eu esforço-me. A tristeza não exige esforço, o amor, sim, exige. Eu esculpo com as palavras. Com palavras certas em momentos certos. Tens a certeza? As frases bonitas têm pouco impacto. Parecem poemas desnecessários. Não possuem convicção, são construções artificiais. A língua lambe o prazer. Sei que vou morrer cheio de curiosidade. Apenas os beijos de despedida possuem uma certeza inabalável. Todos os vícios têm um nome. O protelamento é um deles. Já faz muito tempo que os palhaços deixaram de trabalhar de borla. Há corpos e soluções e complexos que valem uma vida. Bem aventurados os néscios pois deles depende a viabilidade e o futuro do reino dos céus. Os contextos socioeconómicos são certeiros como balas disparadas por uma Glock. Lucky Luke foi morto pela sua própria sombra. Proust tinha toda a informação sobre prostitutas. E também era infeliz. Ou demente. Refletiu tanto que acabou por morrer sem ter vivido o suficiente. Muito se engana quem passa a vida a pensar. O que é preciso é continuar. As semelhanças não valem rigorosamente nada. As diferenças, sim, valem ouro, incenso e mirra. Já não conseguimos brincar. Vivemos bloqueados. Sonhamos dentro dos próprios sonhos. Sonhamos como pagar as contas. Com a ordem que o amor exige. Com a morte. Com o contrário das coisas. No começo da vida não há pressão. Há adrenalina e movimento. Passamos a vida a eternizar os problemas, a alimentar o corpo em vez das sensações. Pensamos no tamanho da felicidade suprema. Por isso somos infelizes. Todas as obras-primas começam numa indecisão. Alguns chamam-lhe perplexidade. Eu, provavelmente, sim. Eu não. O problema das mães é que também morrem. A morte tudo compromete. E o mundo continua sem elas. E sem nós. O melhor é dar-lhes beijos enquanto podemos. Muitos. Todos os que suportarmos.


publicado por João Madureira às 07:00
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