Quinta-feira, 6 de Dezembro de 2018

Poema Infinito (434): A volúpia das gelosias

 

 

O dia começou sob o signo da irritação. Apesar do sol. As vozes parecem quebradas. No entanto, a luz dispersa reflete-se por cima dos ícones doirados. O desejo é um instante. Continuo perturbado pelo encantamento do desconhecido. As manhãs geladas possuem a pureza do ferro. A geada branca guarnece o tronco do carvalhos abatidos. As suas brasas aquecerão os dias de inverno. Os espasmos nos braços são mais demorados. Na parede, Dalila contempla o seu regaço. Eu faço o mesmo. O tempo está sossegado e silencioso. A noite dorme no acampamento. Holofernes assedia Betúlia. Judite espia. O silêncio torna-se violento. A confiança reside na profundidade do sono. Os filisteus sorriem. Os olhares mais audazes descobrem clarões sinistros nas fogueiras. A estupidez dos suplícios continua a caminhar por esse mundo fora. Definha a mágoa, definha o orgulho, definha a aristocracia. Tudo é agora mais cauteloso, apesar das multidões se continuarem a aglomerar junto à praça. A vingança é pior do que a guilhotina. Junto ao riso, a brisa suspira, o azul desmaia. Os gemidos escorrem relembrando os mortos, os antigos anseios, a boca de Pedro beijando Inês. A volúpia torna-se lânguida. O sol declina. O meu olhar fica apenas morno. Os pássaros retornam aos seus ninhos. Trocam o acaso pelo ocaso. Babilónia será sempre uma terra de lascívia, de sândalo, de resina. De sangue. As maldições são indignas nos profetas. Antigamente abriam-se as gelosias para entrar toda a luz. As penumbras eram leves, os balcões floridos. As sombras descreviam o aconchego, ampliavam os vultos, aconchegavam os sonhos. Apesar de os perfumes serem vagos, lembro-me de todo o passado morto, do silêncio dos choros, do tempo calmo, dos céus esplêndidos, da estranha dolência da profundidade. Apesar da inocência melindrosa, a minha puberdade tinha alma de Querubim. A noite que agora dorme é profunda. Os olhares são oblíquos. As velhas bruxas continuam a persignar-se. Os olhares das corujas continuam afiados e penetrantes. O livro dos sinais cabalísticos escurece no fundo do baú. É difícil adivinhar a hora a que os cisnes cantam. Nem o abandono, nem as palavras de Deus têm explicação. Só ausência. Apenas morte. Paz aos que não têm fé. A fé é uma forma de inconsequência. Corta-me o espírito das aflições, oiço as suas queixas, as suas pragas desiludidas, o seu sofrimento, a sua renúncia. O desânimo passa breve como o vento. Depois surgem os sustos. E as surpresas. O corpo está desfeito, a alma exausta. O holocausto nasceu da benevolência dos crentes. Não se conseguem alterar as palavras pela pronúncia. Estendo o olhar por este mar imenso de montanhas. Sinto alguma tristeza nas suas brumas suaves. As noites morosas são brancas, graves e mansas. Sinto necessidade de dominar os espaços, de te beijar os seios. As palavras amorosas dispersam-se no ar como um perfume raro. Depois do amor, regressa a monotonia, com os seus sonhos preliminares. Começa a chover mansamente, como um sono tranquilo e pacífico. De manhã abandonei Verlaine e à tarde a música que o tempo me quer impor. A terra fica estranha e a névoa desce pelos ombros da serra. O vento espreita pelas portas. Sinto ainda o choro da avó no seu velho missal e na água triste do ribeiro. Os dias estão contados. Essa é a nossa alegria. E a nossa tristeza.


publicado por João Madureira às 07:00
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