Quinta-feira, 13 de Dezembro de 2018

Poema Infinito (435): Toda a verdade toda

 

A verdade toda, toda a verdade... é mentira. As despedidas acontecem. O fingimento está nos outros. Fugir de ti é uma impossibilidade estranha. A mãe deixou de morrer. Faz agora parte do vazio. Desse imenso vazio que transportamos dentro de nós. Tanta gente perto do precipício. Nem dá para acreditar. Sinto-me ainda mais sozinho do que as palavras abandonadas dentro dos livros de metafísica. Deus morreu asfixiado dentro da palavra perdão. Judas baralhou o conceito de traição. Por vezes, o saber torna-se insuportável. A felicidade pode ser muito triste. Uma opinião sincera nunca fere suscetibilidades. Vou às reuniões como quem vai a um velório. A arte não é para respirar. Agora aprende-se nas universidades a superior arte da banalização. O vazio é fantástico. O vazio de agora. O vazio reservado às memórias dos outros. O vazio da guerra. O vazio da paz. O vazio é enorme. Tento não pensar no que me dói. Nas dúvidas. Na forma automática do desejo pós-modernista. O desejo é outra forma de sofrimento. Reparo agora com atenção naquilo que já não dizes. Viver é, por vezes, sair de um vazio para entrar noutro vazio. O problema é quando mudamos de sofrimento como quem muda de camisa. A minha euforia é negativa. A euforia é uma nova espécie de depressão. Há lágrimas que nunca secam. Há orgasmos que nunca acabam. Há ainda outros que nunca chegam a começar. Por isso é que Deus não gosta de sexo. Só a procriação é divina. Por vezes, as almas iluminam-se. E as fadas aparecem nos sonhos de forma remota. Todos conhecemos a desilusão. Chega sempre o dia em que o tempo degola a nossa princesa. E o seu olhar será espalhado pelos ermos azuis. Chegou o outono com as suas cantigas sob o desígnio da serenidade. Penso no tempo das árvores, no vento que passa brando, nos sustos, nas noites desertas, nas horas incertas, no tempo que cai devagar, na inconsolável alma do infinito. A ternura ficou triste por causa da chuva. E a saudade distante. A humildade tem a mesma voz da avó, o seu cismar, a sua compreensão, o seu desencanto. A glória do pobre é sempre triste. Também as sombras ao luar são sempre frias. A chuva desce vagarosa. As almas perdem-se no nevoeiro. A rua sente o seu próprio abandono. As orações são trabalhadas durante a noite. Apetece-me trabalhar ainda mais um pouco na luz viva da juventude. Ela desdobra os espaços, consola as mágoas, atenua o tédio e redime os fracassos. A ausência é sempre distância. Depois de tanto desencanto, escondo-me detrás da consciência. Tudo está no seu lugar. Os rumores são vagarosos. O rebanho está sonolento. As paisagens infelizes. Ouve-se até a cadência alternativa dos eclipses. Só os inconscientes tentam interpretar o apocalipse. As saudades por vezes ficam lentas. A luz ficou ligeiramente opaca, melancólica, densa. Houve um tempo em que as rosas eram de carne, em que o amor era uma espécie de desejo lento,  em que o silêncio era extático. Agora é tudo saudade. Os gestos precedem as bênçãos litúrgicas. Fixo-me no teu olhar nostálgico. Na sua imagem de mistério, no seu irrealismo, na sua inconsciência deslumbrante. A noite morre lenta. O dia chega ao de leve. Qualquer coisa de infinito deve ter o amor. Sinto a sua aragem. A sua doce imprecisão. O seu gesto silencioso a estender-se dentro de mim. A alargar-se. A alargar-me. Sinto a sua iniciação. A sua serenidade. A sua divindade. Os lírios costumam morrer em forma de santidade fechada.


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito

.mais sobre mim


. ver perfil

. seguir perfil

. 13 seguidores

.pesquisar

 

.Maio 2019

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9

13

24
25

26
27
28
29
30
31


.Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

.posts recentes

. Poema Infinito (457): Peq...

. Semana Santa - Barroso

. Na conversa

. 443 - Pérolas e Diamantes...

. Em Torgueda

. Ao portão com um sorriso

. Quaresma

. Poema Infinito (456): O v...

. Cozinha Barrosã

. Pastor

. 442 - Pérolas e Diamantes...

. No túnel

. No miradouro

. Na cozinha

. No forno

. No monte

. 441 - Pérolas e Diamantes...

. Na Abobeleira

. Na aldeia

. No Barroso

. Poema Infinito (455): O â...

. Na aldeia

. No Barroso

. 440 - Pérolas e Diamantes...

. No Barroso

. Na aldeia

. No Barroso

. Poema Infinito (454): O f...

. No Barroso

. No Barroso

. 439 - Pérolas e Diamantes...

. No Barroso

. ...

. No Barroso

. Poema Infinito (453): A n...

. No Barroso

. No Barroso

. 438 - Pérolas e Diamantes...

. São Sebastião - Couto Dor...

. Na aldeia

. São Sebastião - Couto Dor...

. Poema Infinito (452): Hes...

. São Sebastião - Couto Dor...

. No Couto de Dornelas

. 437 - Pérolas e Diamantes...

. No Barroso

. No Barroso

. No Barroso

. Poema Infinito (451): Os ...

. No Barroso

.arquivos

. Maio 2019

. Abril 2019

. Março 2019

. Fevereiro 2019

. Janeiro 2019

. Dezembro 2018

. Novembro 2018

. Outubro 2018

. Setembro 2018

. Agosto 2018

. Julho 2018

. Junho 2018

. Maio 2018

. Abril 2018

. Março 2018

. Fevereiro 2018

. Janeiro 2018

. Dezembro 2017

. Novembro 2017

. Outubro 2017

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

.favoritos

. Poema Infinito (404): Cri...

.Visitas

.A Li(n)gar