Quinta-feira, 20 de Dezembro de 2018

Poema Infinito (436): A fina arte de remendar

 

Por vezes correm ventos de loucura pelos corredores do tempo. Existe uma felicidade secreta, provavelmente infeliz, na solidão tranquila e gratuita do lar doméstico. Soljenitsin sabia-o e por isso detestava o robot avariado do socialismo real. A verdade é que a realidade acaba por matar até o mais santo dos homens. Sempre admirei na minha avó a sua arte simples de remendar peúgas e cerzir tecidos. Era uma habilidade calma e não provocava dor. Enquanto a efetuava, não demonstrava entusiasmo nem pronunciava qualquer tipo de reclamação. Foi o seu cérebro eclético que inundou de luz a minha verdade. Mas também me ensinou que ninguém pode saber realmente o que é a verdade. Essa é a maior delas, sei-o agora. As ilusões de outrora são presentemente pássaros empalhados. Existe, vinda da modernidade, uma espécie de paralisia espiritual. Flutuam as imagens de um passado perdido para sempre e também as nebulosas certezas de um futuro que não se poderá conhecer. Adamson lembrou-me a minha avó: “A arte de remendar não é eficaz senão quando feita conscienciosamente.” Essa é a imensa tristeza da segunda parte. Na primeira, fui-me a ti, ordenado pela acaso, guiado pela luz dos teus olhos, subindo por eles como se fossem uma escadaria de astros. O teu corpo era um palácio branco. Colhemos depois os lírios, as tardes, e toda a ansiedade da relva onde deitámos os nossos corpos. A distração era feliz. A paisagem era simples e quieta. Tu fechaste os olhos como uma ave mansa. Desaguei em ti enquanto olhava a mobilidade dos ramos. Eram então longas as noites e as estrelas faziam parte dos pensamentos mais íntimos. Perdíamos  a ansiedade apalpando o sexo um do outro. A felicidade era uma espécie de paisagem total, distraída e feliz. Lá ao longe nasciam cardos estreitos, músicas sereníssimas, silêncios purificados. O êxtase ficava sempre muito perto de nós. Morávamos num país luminoso. A tristeza, quando vinha, escondia-se na penumbra e ali ficava quieta a aguardar a sua vez. Por vezes esperava a noite. Esperava-te na noite. Quando chegavas trazias os cabelos carregados de estrelas e as mãos enfeitadas de luas. Tocava com os meus gestos nos teus gestos. As minhas mãos teciam carinhos de seda. O teu amor era uma espécie de lenda. Os teus olhos brilhavam como se fossem o sol nascente. A minha boca buscava a sede da tua. É difícil libertar-nos da ansiedade, das lendas e dos trajes. Depois, as flores do jardim começaram a morrer e também as vozes dos avós. A seguir a dos pais. E as nossas começaram a ficar roucas. Pensar na eternidade é uma outra forma de sofrimento. Na segunda parte, a ronda da tristeza é mais lenta e mais longa. A imagem da avó ergue as mãos, no seu luto solitário, sozinha, com os olhos rasos de água. Ela não me vê, não me ouve. Tenho pena da avó como tenho pena das aves que endoidecem momentos antes de morrerem. A tristeza não diminui. Os velhos magos refugiam-se dentro dela. Adormeceu antes de partir definitivamente. Parece agora aliviada. Tenho medo de a perder. Que caminhos sidéreos irá percorrer? Ergue então os braços como se fossem asas. Liberta-se dos últimos pensamentos e diz adeus. A sua imagem procura o ar. As minhas mãos ficam dolorosas. Sou mais uma vez flagelado pelas adorações. Vejo tudo o que está para lá dos céus. Morre-me a voz. Não voltarei a sonhar.


publicado por João Madureira às 07:00
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