Quinta-feira, 3 de Janeiro de 2019

Poema Infinito (438): A oscilação das viagens

 

Os senhores da guerra falam agora de paz, mas continuam a construir armas, aviões mortíferos, bombas e escondem-se atrás de uma máscara de estadistas ou filantropos. Gostam de construir, para depois destruir. Escondem nos olhos balas. Dizem que Judas mentiu e enganou. Há ainda quem nisso acredite. Ameaçam os filhos com o medo dos pais. Falam de uma espécie de nova ignorância. As ruas começam a esvaziar-se e as estradas a encher-se. Jogamos com o tempo. Falo agora da minha cidade, desse abandono que ainda amo, do seu inverno, do vento a fazer rodopiar a neve, do seu destino. Sinto esse frio, a oscilação das viagens, o caminhar entre pontes, o calor dos cafés, os jovens delirantes que queriam tocar guitarra e harmónica como Bob Dylan. Pensavam ainda vaguear pelo Oeste selvagem sem sair do Brunheiro. Havia quem ainda fosse criança e já trabalhasse como um adulto. Por vezes, os homens parecem nobres, dizem que não roubam, que descobrem o tempo, que apreciam o sol quando os aquece nas manhãs frias. Longe de casa, percorro os caminhos de outrora por onde passaram pessoas pobres, camponeses, príncipes e até reis. Existiu um mundo velho que era doente e faminto. Toda a gente que caminha sabe bem o sabor da poeira que os outros levantam. Faço da montanha o meu lar. Os pássaros parecem diferentes quando cantam na aurora. As árvores lembram milagres verdes. O medo, por vezes, é breve, apesar da escuridão se eternizar. Todos os nossos gestos transportam em si uma certa saudade. As horas parecem imóveis. Tenho a eterna saudade de te ver chegar. É hora de os templos fecharem. O teu olhar é agora mais sereno. Temos mais coragem para caminhar. Há horas de tempestade que se estendem pelo mundo como se fossem mantos. Os ventos fustigam a fronteira da memória. Os rios gelaram como se fosse noite de Natal. As paredes da velha casa protegem-nos dos ventos uivantes. Às trevas da noite suceder-lhe-á a claridade do dia. O teu amor é uma espécie de fronteira. Parto em busca da alma primitiva dos seres, do seu rastro. Os velhos continuam a chorar as suas renúncias. Lembram-se de quando se amaldiçoavam as mulheres, quando havia gente sem lar, quando se cansavam de carregar o destino dos outros, quando as crianças eram tristes e, apesar disso, cantarem. Lembram-se de vaguear pelos caminhos infinitos. O cavaleiro solitário cavalga pelo tempo, pisando os lírios, subindo as encostas, rodeado por lobos ferozes. As suas mãos flamejam. O vento sussurra-lhe ao ouvido avisos de morte. As raparigas mais perigosas dão-lhe arco-íris. Parece que sabe todas as canções mesmo antes de as ter aprendido. Ele não nos consegue ouvir. Quero aprender a distinguir as palavras boas das outras. Tive um sonho triste onde viajava de comboio rumo ao oeste. Durante as tardes, junto aos amigos, resistíamos às tempestades, dizíamos as palavras com ânsia, gracejávamos acerca do mundo. O assombro ainda era quente, pensávamos que não iríamos envelhecer. Divertíamo-nos com a verdade das distintas hipóteses. Pensávamos até que o desejo não passava. Descíamos à cidade quando o sol brilhava. Subimos então aos pesadelos pensando que eram sonhos. Apesar de parecer, não  é fácil brincar ao Adão e Eva. Afinal, o que é que resta do tempo que já passou? Deixo-te estar nos meus sonhos. É a forma perfeita de os tornar felizes.


publicado por João Madureira às 07:00
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