Quinta-feira, 10 de Janeiro de 2019

Poema Infinito (439): Na porta dos sonhos

 

 

Há homens que gostam de se perder nos caminhos de outrora. Eu gosto é de procurá-los. Depois de todas as renúncias. Por lá começam os itinerários infinitos, as glórias emocionais, a transfiguração das lágrimas, as vozes que falam sozinhas. Desperto junto à curva da fonte. Os risos por vezes provocam dor. E o silêncio descanso. Há quem engula as lágrimas porque sofre de uma espécie de ascensão dolorosa. Também se encontra sabedoria nos abismos. Ninguém está à altura da sua solidão. O prazer pode levar-nos para baixo, apesar de nos dar a impressão de que estamos a subir. Os brinquedos mais antigos produzem o remédio do consolo. Todos desejamos viver mais tempo do que nos cabe. Todos temos uma ligeira inclinação para a insensatez. O prazer não é remédio para todos. Para tudo. Ter nascido ultrapassa todo o entendimento. Agora apareço nos regressos, nas loucuras momentâneas, nos desgostos, nas tristezas, nas discórdias, nos combates, nos debates e também em alguma alegria. A minha insociabilidade é ténue. Incomoda-me a quietude das cegonhas nos beirais dos telhados, as noites esplendorosas e as noites tristonhas. Incomodam-me as planícies desertas, as paisagens do Sul, as perspetivas fechadas da sorte, a arrogância das armas, o pranto no olhar dos débeis, a ligeireza estúpida das grandes riquezas, a pobreza, o sonho oculto da realeza. Fujo das distâncias perenes e da sua aparência. Flutuo no sono e nos sonhos, nas formas vagas das sombras e das neblinas, na brancura dos crepúsculos do Norte. Sento-me então à porta dos teus sonhos. Tenho a impressão que vim de outrora, de muito longe, acompanhado por fantasmas peregrinos, por reis-magos, monges e santos. Sinto ainda a forma e o aroma das suas almas, das suas histórias vacilantes, dos seus distantes idiomas. O amor verdadeiro não admite reticências. De repente evaporam-se as brumas e as penumbras. Os olhos doces têm tendência a chorar mais. As noites mudam de desencanto. Umas constelações acendem-se. Outras apagam-se. Oiço constantemente o pranto dos astros que estão a morrer. Oiço as divinas solicitudes dos que se sacrificam, os seus choros, a humilhação das suas flores, os seus carinhos consoladores, as suas ânsias, as suas dores. As tardes estão mais sozinhas, os caminhantes mais solícitos, os vultos mais tristes, as lâmpadas mais sérias, as recordações mais indefinidas. A amargura dos caminhantes começa a desintegrar-se. As ilusões são cada vez mais retardatárias, os simbolismos líricos mais vagos e as penumbras mais dolorosas e mais escuras. A recordação da mãe fixa-se nas horas tristes. As frases gloriosas são agora inúteis, bem assim como o consolo. O desencanto transformou-se numa paisagem. O medo tem medo de andar sozinho, tem medo de amar, dos sonhos reveladores. As donzelas são agora novelas. Começou a nevar no outono e a folhagem começou a chorar. A angústia tornou-se irremediável. As aves parecem portos de desesperança. As horas são como mulheres morenas que cantam com ressonâncias vagarosas, com vozes lentas, descrentes como tudo o que está longe. Tudo se espalha agora com a súplica desiludida do azul. O vento agita os ramos inconsoláveis das árvores sagradas. A chuva desce vagarosa sobre o Eclesiastes. A poesia continua a ser a eloquência da verdade. Valha-nos isso.


publicado por João Madureira às 07:00
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