Quinta-feira, 17 de Janeiro de 2019

Poema Infinito (440): A diminuição das formas

 

Caminho dentro da minha solidão, sozinho, dividido entre as certezas, entre as indecisões, entre a afirmação e a negação dos instintos. Entre o bem e o mal. É cada vez mais difícil distinguir a voz de cada um. Deuses e homens continuam as feras fraternais de sempre. Também se ouvem queixumes líricos, balidos agnósticos, gemidos amargurados. Quem muito chora muito descrê. Nos teus olhos brilha um luar profundo, as tuas mãos irradiam luz. Espalhou-se pelo mundo uma nova forma de violência fria, cheia de crueldade. A sua liturgia é impura, fala de versos derramados, do sangue dos poetas assassinados, da eterna rebeldia dos escândalos, dos sonhos orientais. E do ópio. E do sândalo. E dos tesouros que uns guardam dentro das arcas e outros dentro do seu coração. As almas impuras estendem-se ao sol. O poeta é testemunha, réu, vítima, juiz. Não suporta qualquer tipo de violência. Escreve a tristeza com letra penitente. A tarde ficou morna e sombria, o céu pesado, o mar ermo, as horas monótonas e iguais. O tempo não tem pressa, nunca se aflige, gosta de ser devagar. As nuvens começam a fugir. A noite cai sobre a cidade. Os caminhos são cada vez mais longos. A solidão estendeu-os pelas encostas das serras. O esquecimento é a distância maior. Estão sempre a mudar a hora de chegada e de partida. O passado é cada vez mais ausência. As frases antigas são como lendas. Recordo-me da esperança, da docilidade das crianças, da dispersão do silêncio, da coragem, do abandono, da certeza, da incerteza e dos remédios. O tédio também pode ser desespero. Lembro-me muito bem da calma dos olhos da avó, do destino dos seus sonhos, do cantar dos galos na alvorada, dos dedos vagarosos do desejo, da alma das flores e dos animais, da solidão nebulosa dos crepúsculos, da mansidão dos sonhos, da fragilidade das frases com a palavra amor. Os pensamentos adquiriram agora a forma de aves noturnas. Vibra o tempo por causa das badaladas do campanário. Os beijos são cada vez mais sofridos. Parece loucura, mas ainda vibramos juntos. A mãe chora por já não me conseguir ver. A sua memória ainda é doce. As histórias que me contava ainda são amadas pelo encantamento: o Barba Azul, o Ali Babá, todos os contos de Natal com ovelhas, burros, pastores e reis magos. A minha memória reduz o menino nas palhinhas deitado a uma redundância. Dezembro ainda é bonito mas habita cada vez mais longe. E eu rezava e sonhava com coisas lindas. As formas do pai e da mãe são cada vez mais diminutas. Eu não as esqueço. Quando o sono vem já não me apetece dormir. A insatisfação é a minha maior companheira. A memória da avó está envolta em aroma de rosas, parece uma princesa silenciosa. Continua a fiar destinos apesar de nunca se ter preocupado com o seu. Tento olhar o céu com os olhos de um santo. A flama azul transforma-se em pranto. Está na hora de desistir. Lembro-me de Sodoma, da opulência, da indolência, da oscilação pendular dos enforcados. Não vá o pecador além dos seus desejos. Estão já cansados os sofredores de perdoar a quem os faz sofrer. Todo o mal é uma cisma do inferno. As suas sugestões são infinitas. Dizes-me adeus como se eu fosse uma espécie de luar. Caminho para fora da existência com o êxtase dos monges mais sérios. A luz da aurora traz-me a felicidade verde do teu olhar. Ainda não é hora de partir.


publicado por João Madureira às 07:00
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