Quinta-feira, 24 de Janeiro de 2019

Poema Infinito (441): Os nomes simples

 

 

Os nomes simples nascem dentro de nós. E depois, lá fora, crescem os nomes dos elementos, as forças externas, o sonho do fim das guerras, o ar angélico dos demónios, o ar demoníaco dos anjos, o significado das estrelas, as bocas árduas, as zonas iluminadas a partir do centro, a vibração dos rostos, tudo aquilo que nos devora as células: o amor, a comida, o sono. E também o valor hormonal da decadência, as queimaduras, a respiração do vidro, a aceleração da respiração, a encarnação, a assunção, o desespero, a ordem nominal do mundo, os objetos que nos tremem nas mãos, tudo o que nos arde no cérebro, o nome dócil das máquinas, o deslumbramento dos nomes perfeitos, o batismo, os segredos inaugurais, o reino dos segredos, as palavras que os mestres carregam, o número inexplicável de prodígios, os sentimentos imóveis, o vento que passa eriçando a pilosidade de Deus. Irrita-me que o nome da liberdade seja invocado em vão, pois tudo o que é efémero se desfaz. A pátria está dividida, a terra exausta, o céu cinzento e o mar feito em pedaços. Apenas consigo alcançar os horizontes com o olhar. Já consegui identificar a partícula atómica que define a fronteira entre o dia e a noite. A glória de Deus ficou silenciosa. Adormeço no teu corpo escutando a sua música interior, a volúpia em dispersão, o medo, o sonho imortal do medo. Amplia-se o espaço. Eu tenho medo de ter medo, medo da tristeza, medo da dúvida, medo do desejo, medo da eternidade, medo da morte. Fez-se silêncio no teu corpo. Não há verdade sem palavras. O tempo é tão inútil que chega a enlouquecer. Não sei de onde vêm os caminhos que vão dar a ti. Cobrem-se os tempos de novas maldições. Os deuses de agora tudo deixam passar, põem os braços em cruz e exibem-se nos caminhos mais largos. Ventos virão de novos nortes, provocando outros dilúvios. As nuvens afogam-se dentro das águas do mar. A própria chuva não tem fim. Continuo à procura da palavra perfeita, da sua voz, do seu tempo, do seu mundo. As cores quentes espigam no meio dos abismos. O vento dispersa os gestos magníficos, as formas artísticas dos planaltos. Os corpos dançam. As labaredas iluminam as pedras e as árvores. Os nomes vibram como se fossem estrelas. Os dedos tocam-nas. As folhas brilham. Os segredos repetem-se. E repetem-nos. A eternidade é muito longa. Dizem que não tem forma, nem termo, nem explicação. É como uma luz difusa. Ninguém consegue entender a sua linguagem. Até a sua simplicidade é difícil de decifrar. Por isso o seu encanto é triste. Não se pode mostrar porque ninguém a pode ver. Nela não há bondade, nem tristeza, nem amor. A sua alma pesa como se fosse feita de mercúrio. Por vezes a tua voz acaba com as ameaças. Gosto quando me quebras a angústia. Não há mundos, mas caminhos. As árvores estão floridas, os seus frutos dispersar-se-ão pelo solo. Os seus ramos são serenos. As cores e as linhas do desejo adquiriram novas formas. O teu olhar está mais além. És o meu sonho realizado. Sinto a tua presença silenciosa. Os objetos da eira esperam pela luz. Os espíritos são como algoritmos, números sem tempo e sem nome definido, intermitentes, que não deixam rasto. São uma extensão dos sentidos de Deus. Pões as tuas mãos sobre a minha finitude. Pareço uma árvore que pensa. Escuto o vento que passa. Sinto o seu medo e o seu júbilo. Sinto a sua ternura e a sua saudade distante. A chuva desce vagarosa sobre nós.


publicado por João Madureira às 07:00
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