Quinta-feira, 31 de Janeiro de 2019

Poema Infinito (442): O que o profeta diz

 

O profeta disse que quando tocava nas zonas periféricas da luz sentia o seu calor e depois conseguia dividir o vento, abrir as searas profundas, entender o valor das palavras e pesar a sua capacidade de abstração. Os objetos em que toca ficam a brilhar. No entanto, as dúvidas continuam a passar de boca em boca. As mãos crispam-se em espasmos. Os corpos desejosos de luz e orgasmos tremem como varas verdes. Os sítios da infância assemelham-se a poços sem fundo. O vento bate as searas, o ar levanta-se. As pessoas aproximam-se dos seus nomes e os nomes dos seus hologramas. Tu és a minha abundância. As estrelas ainda remoinham na mesma clareira onde eu costumava brincar. Lembro de a minha boca devorar a tua em forma de metáfora ininterrupta. Os dedos do tempo movem o mundo. A sua leveza desequilibra o amor. Algumas vezes, tanto vigor. Outras, tanta impotência. Sinto a eletricidade das cópulas primaveris, quando ampliamos os abraços, acendemos os sexos e atingimos a claridade reflexa das cores transitórias. As nossas bocas parecem labaredas. A combustão é instantânea. Sinto-me crescer dentro de ti. Esse é o meu sentido de posse. Essa é a minha pose. As mãos compõem a sintaxe do desejo. A sua ampliação. É quando perdemos o juízo que vamos dar ao paraíso. As estrelas mais claras aparecem nos corpos mais morenos. As estrelas mais morenas aparecem nas peles mais claras. Há quem me interprete como vindo de outra encarnação. A estupidez continua a ter futuro. Deixem enferrujar as espadas. Descansa o medo nas minhas pegadas pelo meio do monte. As folhas da macieira continuam a recolher o luar. O sabor da desilusão é sempre amargo. Por vezes as cicatrizes do amor brilham com uma intensidade violenta. Por vezes bebo da tua loucura e fico enflorado como se fosse um cometa que desliza sobre a água do mundo. Noutras alturas fico aluado com o fôlego obsessivo do ato sexual. A fosforescência do teu sexo, os botões dos teus mamilos dulcíssimos, a ideia meteórica de tudo aquilo que se espalha. Os espelhos, por vezes, espargem a luz. Andamos a apurar a substância melíflua das voragens, o poder do arrebatamento, os territórios silenciosos das mães. As laranjas do laranjal transformaram-se em meteoros, envoltas nos seus tecidos suaves. Vibram as rosas. A lenha arde por causa da sua resina. As curvas do tempo ficam mais harmoniosas. Corre a luz entre o teu peito e o teu sexo. Os dez dedos das mãos estremecem. As palavras ficam encharcadas de desejo e de sémen. As estrelas redemoinham. Abre-se o vento. A luz abre a noite. A gramática fica abrasada pela volúpia dos sentimentos. Cresce uma arte louca em nosso redor. Iluminam-se os lados das casas, os mistérios, a massa dos átomos que alivia a memória. Os dias separam-se da saudade. Resistimos à força do fogo protegidos pelas armaduras da leveza. Tudo o que é natural desaparece. Inclinamo-nos nos dias inteligentes, quando as sombras naturais se queimam na sua própria exatidão. Os vestidos têm o desplante de deformarem os corpos. O amor acumula-se. A alma aperta-se. Os campos de trigo ficam extraordinários. Respiro a tua doce dissipação. Que absurda tarefa é a do esquecimento. A inteligência pode ser cruel. Continuo a procurar o sentido da vida por entre as pedras. Amo-te mesmo debaixo dos relâmpagos.


publicado por João Madureira às 07:00
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