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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

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14
Fev19

Poema Infinito (444): Morte e ressurreição do desejo

João Madureira

 

 

O desejo está do lado da verdade ou da mentira? O desejo está do lado do desejo. Como se pode fugir do caos? A literatura não pode ser impostura. O corpo acaba. O desejo não. O género não se deseja, tem-se. O desejo nunca foi o Demónio, é Deus. Tanto como Deus deseja o desejo, também o Demónio deseja ser Deus. A blasfémia é o desejo convergente de Deus. E do Demónio. Do Demónio de Deus. A ofensa é um prazer que se perdeu. Resulta daí. A sexualidade é o nosso ponto frágil. Todas as configurações são domesticáveis. O desejo não. O desejo que se foda. O desejo fode-nos. Lidar com o desejo é um problema. O sexo não é um castigo de Deus. O desejo sim. Toda o obediência desobedece ao desejo. O desejo paga-se com desejo. O desejo é a nossa potência e a nossa impotência. Apesar do desejo ter a sua própria língua, escapa à linguagem. O desejo está do lado da verdade. A convenção, não. Ninguém consegue domesticar o desejo. Esse é o castigo de Deus. Por vezes o desejo parece verdadeiramente inverosímil, mas está lá, em tudo o que é iluminado. A religião nunca consegue dar bem conta do pecado. O desejo é um risco de vida. O desejo tem medo do caos e ainda mais dos seus limites. O domínio quase absoluto da razão é praticamente desumano. O desejo é quase irracional. O desejo não obedece à razão. Todos nós sofremos nas mãos do desejo. O mundo empobrece quando o queremos simplificar. O desejo está para além do mundo caótico da verdade. O desejo baseia-se na contradição. O teu estilo é uma ênfase. O desejo vai nu mesmo que vá vestido. O desejo pode ser para o bem e para o mal. Guardo o teu desejo nos meus lábios. Quero desejar-te. Quero o que não tenho. Esse é o erro do acaso. Subitamente dentro de ti cintila o desejo. Esse desejo desejoso de desejar. Agarro-me a ele sobretudo quando me quer deixar. O desejo é como se fosse o meu futuro. O presente esgota-me e esgota-se. O desejo pode matar. O desejo pode matar o desejo. Sonho com vastidões imensas. Sonho com a luz. Com a luz imensa do desejo. O desejo reza. O desejo chora. O desejo de Vénus é a sua cintura estreita, as suas mãos suspeitas, o seu sexo a arder. Também sonho com a solidão impalpável do desejo. Por vezes o desejo sossega sem saber a razão. Também as ondas são breves. E a verdura. A verdura extensa do desejo. As águas lentas encontram-me já exausto. Eu sou o Fausto do meu próprio desejo, a sua esperança gulosa, a sua impaciência, a sua loucura, a sua indecência. O desejo também pode ser um jardim. Observo o teu desejo como se fosse um retrato. Os corpos costumam rodar quando estão insatisfeitos. O fator da tua boca faz-me entrar em pânico. O mesmo pânico que nos assalta quando prendemos uma ave. De onde me vem esse desejo? O teu desejo. O desejo também pode ser obscuro. O desejo vagaroso. O desejo por vezes conversa comigo como se eu fosse uma criança parva. O desejo acorda-me a carne. O meu desejo tem os olhos claros, da cor dos teus. O desejo também pode ser clandestino. Por vezes vela-me. Outras vezes velo-o eu. O teu desejo segue-me noite e dia. Depois de vencido, o desejo tomba de forma dolorosa. O corpo vence-o mesmo quando é vencido por ele. O seu gozo é lânguido. O desejo define-me o prazer. Por vezes prende-me. Outras vezes embala-me. Por vezes sou o seu tesouro e a sua glória. Por vezes sou a sua vitória. A seguir volta a subir por mim acima como se eu fosse a sua árvore. O desejo é a serpente do paraíso. O pecado morre ao lado. E ressuscita no dia seguinte.

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