Quinta-feira, 28 de Fevereiro de 2019

Poema Infinito (446): O preenchimento das hipóteses

 

 

Nascem os livros separados de mim, tardios, errados na sua intenção de incluir todo o desassossego de Bernardo Soares. Entre as suas palavras existe idêntico intervalo. E igual afastamento. Os mesmos exemplos tristes continuam a sobreviver: os mesmos versos incompletos, a mesma lírica morta, a mesma fixidez epistolar. O devaneio, a existir, encontra-se todo nas expressões mais íntimas. A sua conexão lógica possui as mesmas características. Os livros grandes, e os títulos grandiosos, deixaram de ser hipóteses válidas. Torturam-nos as mesmas inquietações, a tentação da linguagem absurda, a tristeza das causas perdidas, a alegria do desmoronamento. Morrem os velhos pensando na infância. A amizade que agora desenvolvo é mais íntima, apesar de parecer mais frívola. A manhã tem agora mais hipóteses de ser transportada para dentro de nós. Até a organização mais feroz é passível de uma desorganização metódica, basta escolher as circunstâncias. Temos de tentar viver com as dolorosas sensações quotidianas. A glória da morte é uma inutilidade. Os domingos continuam a ser preenchidos pelas mesmas caras sem interesse, pelo mesmo sossego das conveniências, pelo almoço à mesma hora. Os homens desenvolveram a exagerada característica de permanecerem sentados, vestidos de desleixo, interessados nos feitios, obcecados pela estagnação, pelo traço grosso da angústia. Todas as frases casuais provocam eco. E é inútil esperar que se modifiquem. Ou que nos modifiquem. É estranha a arte da observação. Quase ninguém a reconhece, ou se reconhece nela. Na maioria das biografias não existem factos, só impressões sem nexo, histórias sem vida. São como as confissões de quem não tem pecados. Por isso costumo traçar as paisagens com aquilo que sinto. Daqui costumo ver a tua alma a errar pelas salas, a tentar ler o tempo, a sair à rua para tentar conhecer o sol. Entram borboletas pela janela. O teu sossego é injusto. As tuas mãos colhem as flores sem darem por isso. Tenho a ambição de entrar nos teus desejos, de ver o vento crescer, de sentir o tempo a  espalhar de mansinho coisas felizes pela encosta do monte. As nuvens, por vezes, interrompem a chegada da luz. As vacas engolem o silêncio junto com a erva. Os avós são agora as duas árvores cansadas que fazem sombra no fundo do jardim. É lá que me costumo sentar, na minha cadeira predileta, a ler. Lembro-me de os nossos filhos se cansarem de tanto brincar e de tu lhes limpares o suor da testa. Eram como versos contentes. Agora os seus olhares possuem a nitidez dos girassóis. Farão sempre parte do meu espanto inicial. Possuímos a mesma filosofia dos sentidos. Observo os campos em frente e ardem-me os olhos. Sinto-me preso na liberdade das cidades, quando observo as casas, quando desço o olhar sobre o asfalto. Nunca gostei de esmagar as flores em livros. Agora elas espalham-se pelas cortinas. Nenhum ato de organização é uma tarefa fácil. A partir do caos, havemos de organizar todo o sistema do movimento ideal. Os objetos conquistaram o seu lugar definitivo. Já domino os atos nos seus mais íntimos pormenores. Apesar dos exercícios de manutenção, a memória está cada vez mais frágil. Todo o equilíbrio gera desconfiança. Já não tenho medo do reflexo dos olhares. Limito-me ao estritamente necessário. É como se o tempo caísse desamparado em cima de mim.


publicado por João Madureira às 07:00
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