Quinta-feira, 11 de Abril de 2019

Poema Infinito (452): Hesitação

 

 

Tudo o que fazemos é como o vento. A água densa transforma-se em sonho. Lá ao longe choram as sombras secretas. O teu corpo ganhou novas metamorfoses. Os meus olhos vertem melancolia. O vento sopra do lado do mar. O tempo perdeu-se entre os sabugueiros. O prazer morre de sede em frente à tua frescura. As gotas de orvalho já dormem nos canteiros. Conversamos entre os dois extremos da noite. Nem as perguntas, nem as respostas, se reconhecem. As estrelas trémulas inclinam-se sobre as palavras. Os rostos parecem versos andróginos, presos em círculo, chamando por nós em voz alta. As paredes ficaram transparentes. Coitado de quem está sozinho e sonha os vários desejos afligidos. As aves voam dos espelhos à procura da água. O seu gesto de voar é infinito. Preparo alguns versos para os plantar enquanto há luar. A velocidade do vento desmonta o puzzle das cores. O coração continua repleto de incertezas. O tempo que vem do mar é ríspido e amargo. Chora o sentido da sombra. A aflição impõe o seu silêncio fino, as horas desiguais. Deito-me dentro da minha própria fadiga. A necessidade gera caminhos claros e serenos. Os náufragos vêm de longe, envoltos em frio, agitando as suas mãos mais antigas. Acontecem novamente as vozes da incerteza, a possibilidade de outras coisas. Escuto a metafísica. O sol alterou o desenho das sombras. Há céu por todos os lados. A chuva intimidou-se. Sinto de repente uma coisa semelhante à ternura. As pessoas começam a transformar-se em símbolos. Adquirem forma crepuscular. O vento continua a desgastar os insetos, a sustentar as árvores, a anunciar a vertigem dos oceanos. Estou tão breve que me sinto em tudo. Estou entre a asa e o voo, entre o fruto e a doçura, entre o corpo e a cinza. A aldeia já se despiu dos vestígios dos avós e dos pais. Magoa-me a sua saudade. Os frutos das árvores da Ribeira ficaram inacessíveis. As fotografias já beberam toda a sua ternura. Percorremos agora os caminhos de forma inversa. Nem as lágrimas nos defendem. As borboletas soltaram-se dos teus dedos, procurando os lugares mais secretos. A ternura continua a abrir-me feridas. Mergulho os meus dedos na tua transparência. A árvore do inverno ficou transcendente. Respira agora dentro da sua harmonia mortal. Os velhos livros manuscritos estão cheios de gritos. Pertenço a uma geração nostálgica. As crenças nascem dentro da música inorgânica. São a sua forma, a sua inspiração, o seu crepúsculo. A vida está limitada pelos murmúrios. A sua caligrafia é moral. A sua virtude expande-se como se fosse uma metáfora. E mexe. E incendeia todas as coisas. Repouso os meus olhos na quietude do lago e na infinita impressão dos teus. Acho que perdi o endereço dos nossos sonhos. O tempo do regresso é sempre mais demorado do que o tempo da partida. A coragem é sempre temperada pela esperança. Os homens sábios sabem sempre como preencher os seus silêncios. O sol e a água continuam a ser a religião do mundo. Não são as opiniões que fazem crescer as plantas, nem a realidade dos girassóis. O tempo teima em abrir o livro do esquecimento. Sinto o rumor das palavras que vem do fundo da casa. Há hesitação nos teus dedos. As imagens mortas fixam a areia. O barulho das aves vem de encontro a nós. Parece que Deus chegou. Eu apenas escuto o seu silêncio. O seu silêncio infinito.


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito (1)

.mais sobre mim


. ver perfil

. seguir perfil

. 13 seguidores

.pesquisar

 

.Maio 2019

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9

13

24
25

26
27
28
29
30
31


.Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

.posts recentes

. Poema Infinito (457): Peq...

. Semana Santa - Barroso

. Na conversa

. 443 - Pérolas e Diamantes...

. Em Torgueda

. Ao portão com um sorriso

. Quaresma

. Poema Infinito (456): O v...

. Cozinha Barrosã

. Pastor

. 442 - Pérolas e Diamantes...

. No túnel

. No miradouro

. Na cozinha

. No forno

. No monte

. 441 - Pérolas e Diamantes...

. Na Abobeleira

. Na aldeia

. No Barroso

. Poema Infinito (455): O â...

. Na aldeia

. No Barroso

. 440 - Pérolas e Diamantes...

. No Barroso

. Na aldeia

. No Barroso

. Poema Infinito (454): O f...

. No Barroso

. No Barroso

. 439 - Pérolas e Diamantes...

. No Barroso

. ...

. No Barroso

. Poema Infinito (453): A n...

. No Barroso

. No Barroso

. 438 - Pérolas e Diamantes...

. São Sebastião - Couto Dor...

. Na aldeia

. São Sebastião - Couto Dor...

. Poema Infinito (452): Hes...

. São Sebastião - Couto Dor...

. No Couto de Dornelas

. 437 - Pérolas e Diamantes...

. No Barroso

. No Barroso

. No Barroso

. Poema Infinito (451): Os ...

. No Barroso

.arquivos

. Maio 2019

. Abril 2019

. Março 2019

. Fevereiro 2019

. Janeiro 2019

. Dezembro 2018

. Novembro 2018

. Outubro 2018

. Setembro 2018

. Agosto 2018

. Julho 2018

. Junho 2018

. Maio 2018

. Abril 2018

. Março 2018

. Fevereiro 2018

. Janeiro 2018

. Dezembro 2017

. Novembro 2017

. Outubro 2017

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

.favoritos

. Poema Infinito (404): Cri...

.Visitas

.A Li(n)gar