Quinta-feira, 18 de Abril de 2019

Poema Infinito (453): A nudez da expansão

 

 

Há tanta claridade nas ilusões. O azul do céu expande-se de forma tão nua, simples e cristalina que chega a ser indecente. Fecho a janela por pudor. Frente ao espelho, olho para mim e sinto que estou a ver alguém diferente. Apesar de estar aqui, estou infinitamente longe. A razão humana não é exata, desorienta-se e engana-se. Já não consigo pesar a calma. São os anjos os responsáveis pela limitação do infinito, pela sua divisão em porções. Por isso é que os antigos sonhavam com eles. Os nomes escutam-se a si mesmos. A tarde de hoje ainda conserva as lágrimas da de ontem. Esta lonjura fecha-me os olhos. A luz do silêncio fica mais doce. Contemplo o teu corpo como se fosse a tua alma. Os caminhos junto ao rio ficaram invisíveis. Os invernos são agora mais imóveis. Até as raízes crescem de outra maneira, enroscadas na terra, como se fossem morrer. Os corpos cedem aos abraços, ao ritmo das viagens, à fadiga do tempo. Ninguém se sustenta apenas de sonhos. Procuro-me nas águas do rio da minha memória. O silêncio dispersa-se em várias direções. Por vezes adquire a forma de pássaro, definindo a aproximação dos sexos e o modo do nosso desejo. É difícil o equilíbrio no meio dos mistérios. A necessidade é uma coisa bem concreta, feita de fisionomias, de pensamentos irrelevantes, de florestas que crescem com febre, de alucinações obstinadas. Os novos acontecimentos necessitam de uma nova linguagem. As horas e as figuras desmoronam-se com uma firmeza irredutível. É triste ver morrer as alegorias como se estivéssemos em guerra. Toda a decadência é amarga. Já não é possível desfolhar a água, nem recolher o poente, nem arrumar os sonhos. O nada é cada vez mais infinito. Apesar disso, os homens ajudam-se e resignam-se aos seus sonhos. Pareço-me cada vez mais com as tuas expressões. Caminho entre fantasmas amigos. Hesito quando subo à sua dimensão. Os grandes montes produzem grandes crepúsculos. Toda a insensibilidade é anónima. Tento afastar o meu desassossego. Deus deixou de ser uma possibilidade. O meu infinito é igual a nada. Procuro a raiz das lágrimas, o eco dos olhares, os gestos do deslumbramento. O pensamento perdeu a sua fisionomia construtiva, tornou-se irrelevante. As minhas memórias acabaram por devorar os teus reflexos. Os espelhos são obstinados em reproduzirem a nossa decadência. Lançarmo-nos na neblina é uma aventura profundamente absurda. Do lado de lá tudo é perfeito e liso. Um poema é a mais sábia de todas as linhas. Foi uma mão de ferro quem escreveu o Antigo Testamento. Depois os apóstolos começaram a escrever epístolas para confundir a cristandade, sem sumário e sem reflexões. Os lábios do prazer, por vezes, parecem feitos de sangue. Sinto gravitar tudo à minha volta. A boca do tempo tem agora a boca cerrada e está rodeada de rugas profundas como regos escavados pela chuva das tempestades. Continuam a acontecer coisas inverosímeis, silogismos, incongruências. A enorme linha do horizonte parece uma parábola amarela. Os seus braços são ilegíveis. Gosto de tudo o que é flexível. Sei agora que até o próprio ar tem matizes. Libertei-me das toxinas do destino. Apesar da luz que projetam, as almas são incuráveis. Todos os dias acabam por ser um só.


publicado por João Madureira às 07:00
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