Quinta-feira, 25 de Abril de 2019

Poema Infinito (454): O frio limpo do linho

 

 

 

Coincidimos na poesia. Na sua mordedura. A neblina tomou conta dos rostos dos avós, dos rostos dos pais e de muitos tios. As aves atravessam a manhã. O que importa é escutar. Algumas memórias permanecem límpidas. Outras são inertes e enormes como montanhas. O lume da lareira repete o refúgio dos antigos encontros. Aprendi cedo a saudade das despedidas, a interrupção das coincidências, as paisagens agrestes do Barroso, as nuvens que prometem chuva, o estremecimento súbito das casas, a miragem fatal das tempestades, o medo das tragédias, a ira dos deuses, a morte instalada nas lâminas das facas. Percorro o teu corpo como quem investiga um mapa, como quem descobre ilhas no meio do oceano, com os dedos vagarosos. As mãos escrevem tristes geografias, labirintos de razões improváveis, escarpas que as ondas do mar ajudaram a definhar. Pressinto o tempo, a conjetura das sombras, os muros do desejo. Deitado na cama, ouço a tempestade. A luz define os contornos da noite. O outono não tarda a chegar. Já vejo o frio nos teus olhos. Ao fim da tarde, as sombras crescem como florestas. Nesta altura desenvolvem-se as febres. Os acontecimentos revelam novas teorias sobre a realidade. No entanto, o tempo é outro. A memória devora os reflexos da água. As presenças desfazem-se, tornando todo o esforço inútil. Chegou a altura de me conformar com as ausências, com o lento desmoronamento da vida, com a decadência, com a voz obstinada da decadência, com a decomposição eterna das horas, com a afinidade das alegorias. Os sonhos mágicos possuem agora um sabor amargo. A perfeição não existe para os olhares indecisos. Subimos e descemos pelas ruas mortas. Os olhos dos velhos parecem círios cediços. As suas bocas escondem segredos. Sentem o frio da sua próxima ausência. O seu mundo está cheio de vazio. Já não conseguem distinguir o que tarda e o que chega cedo. Os seus abismos não têm limites. Ocupam-se a reconhecer o indício das sombras, a imobilidade dos prados, a inconstância do sono. Chegou o momento de monitorizar a existência. Não há nenhuma diferença na igualdade. Só monotonia. Possui ela o mesmo constrangimento das casas conhecidas, a mesma sensibilidade da angústia, a mesma calma das cadeiras. Lembro-me agora do frio limpo do linho, da necessidade de perguntar, da disposição irracional para a infelicidade. O tempo cria a angústia das saudades. Fixo-me obstinadamente no tom lento da luz que o soalho envernizado reflete. O meu pensamento adquire a suspensão do pó que a aragem despega dos móveis. Chegou o tempo das grandes estagnações. A água de inverno deixa os campos ainda mais tristes e vagos. Nestas alturas o cheiro dos livros é mais intenso, o sono mais agitado. Tudo parece chegar mais cedo. Os espectros vêm carregados de memórias. Resignamo-nos então à dor, ao regresso da vergonha, ao fardo das palavras. A velhice envolve-nos em indiferença. Dizem que o avô conheceu montanhas geladas, atravessou noites e florestas densas. Dizia que todas as ruínas são provisórias. Agora as escolhas são feitas ao contrário. Por isso, tudo é mais vago. Os homens podem pouco contra a compaixão. Os grandes segredos guardam-se dentro do coração. Sem crianças, o Natal é agora ainda mais doloroso. No entanto, a distância entre a minha e a tua mão deixou de existir.


publicado por João Madureira às 07:00
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