Quinta-feira, 2 de Maio de 2019

Poema Infinito (455): O ângulo da pureza

 

 

Consigo pensar em não pensar em nada. Consigo não pensar em nada. Consigo não pensar. Consigo. Nada. É difícil pensar a ausência. A roda gerou um tempo novo, modelou a velocidade dos nascimentos e preparou-nos para a dimensão dos mistérios. O verdadeiro enigma é o que eu sinto ao respirar-te. Deus inventou a eternidade quando o mais santo dos homens santos trocou as missas pelas viagens. Virou-se o feiticeiro contra o feitiço e o mundo perdeu a sua melancolia. Tudo voltou ao que era: os pássaros, as flores e os marinheiros remando para longe das suas embarcações. Tudo se transformou numa coleção de fotografias cheias de saudade. As feiticeiras recuperaram as madrugadas, os caminhos ficaram mais largos e o vento quebrou as formas do sono e do movimento perpétuo. Todo o esquecimento é feito de inércia. Os frutos das árvores da quinta são agora mais agrestes. O vento é mais amargo. São os meus dedos tristes aqueles que escrevem os sonhos claros e que imaginam o contentamento. A esperança está isenta de consentimento. São os lábios indecisos aqueles que modelam a frescura das rosas. Os campos estão plenos de bruma, as árvores parecem perdidas e as sombras lembram a trajetória e os contornos dos pensamentos mais audaciosos. Com o decorrer do tempo, tudo se faz tarde: os objetos, as cores, a esperança. A aldeia dorme dentro de mim completamente imobilizada. Já faz parte do meu desassossego. É outro tempo o tempo da poesia. Sinto a mordedura do sossego da madrugada. Todo o desejo me vem à boca. Não me ensinaram a ser árvore, a traduzir os silêncios, a transcrever as paixões. Sinto-me um menino a talhar o futuro a golpes de poeira. Ainda ali estão as pedras que não chegaram a ser casa. Contentaram-se em ser linguagem de chão. A respiração dos animais é agora mais lenta. Deus, por vezes, entretém-se a torcer as linhas do tempo. Por isso, os sete dias da criação foram transformados em infinito. Deus já não crê nos homens. A mulher deitou-se na sua própria sombra. Dela saíram pequenos pedaços de mistério. Aprendeu a fixar-se na paciência dos rios. Agora chora porque sente que perdeu a sua transparência. A luz infinita inverteu o percurso do mundo. Outra mulher atravessa o nevoeiro com as suas mãos de fogo. As suas palavras são como bolhas de água. Tudo parece confuso, até os murmúrios da água fria que banha os abetos da margem do rio. E o rio sofre. E a noite sofre. A noite parece uma mulher enlouquecida. E o dia também irá sofrer. A antiguidade possui o estilo memorativo da intimidade. Os lábios dos navegadores murmuram os sofismas do regresso. Muitos deles regressaram mesmo sem terem partido. Estavam habituados às divindades, às tensões percetivas, aos estigmas, à lucidez dos números, ao contágio temporal das orações. O silêncio pode ser uma herança incómoda. No entanto, podemos equilibrá-lo com sensibilidade, com lirismo, com ascese, dando-lhe a forma de uma claridade abstrata. Toda a moral tem de ser caligrafada para não invocar o desejo dos corpos em vão. É leve o voo das andorinhas. É leve o amanhecer. É também leve o movimento natural das paisagens. Já o movimento perpétuo da realidade é tão pesado como os remorsos. O sol da tarde começa a roer a planície. A superfície do tempo dá expressão aos rostos cansados. Tu és o meu ângulo de pureza.


publicado por João Madureira às 07:00
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