Quinta-feira, 16 de Maio de 2019

Poema Infinito (456): O voo dos pássaros eternos

 

 

Os pensamentos aquecem os nossos corpos até à temperatura do desejo. Já não precisamos de ser empurrados pelos deuses da inspiração. Entretanto, o dia evapora-se lentamente. As nossas bocas contam histórias que correm como água em terreno sedento. A mística é a substância deste tempo. Já é passada a época das grandes inundações, dos príncipes assassinos, das histórias que devoravam os homens e as mulheres. E as crianças. Os maus jogos acabam todos empatados. Mas tudo começa de novo. Agora podemos voltar a falar dos olhos que viram as enormes janelas do Templo de Salomão, da conclusão das aventuras, dos aviões que acompanham lá do alto a misteriosa simetria das religiões, os incêndios do tempo e das gramáticas, a linguagem extensa das bibliotecas, dos públicos metafóricos, da higiene das paisagens, do frio extenso das paragens. Faz parte dos erros infantis desperdiçar os gestos da dança, a alegria transitória dos bailes, a nobreza do agrado, a admiração pelos paralelepípedos. Há tanta água em volta de Veneza que nos dá prazer pensar nos desertos, na profundidade inconsequente do Mediterrâneo, nas grandes cidades que a História construiu e destruiu. As regras de conduta definem a moral dos mestres. Os anjos do desassossego repetem em tom meigo as parábolas que fazem parte das cidades. Uma grande cidade não é aquela que tem mais cidadãos. Os néscios não usam fórmulas, mas a picareta. E avançam. E avançam. E avançam. Os bons aprendizes da sabedoria estudam as lições essenciais. Os sítios mais bonitos são os que cabem numa curta narrativa. As extremidades dos países são quem define a sua verdadeira importância. O nosso tem dois lados que dão para terra e outros dois que caem no mar. É uma terra quase simpática. Quase não aparece no mapa-múndi. Resultou de um gesto ligeiramente perverso de um filho em relação à sua mãe. Foi a luta amorosa o que nos fez sair do labirinto. Os caminhos são infinitos. Tudo é infinito. Mas tudo acaba. Os sonhos choram agora de forma lúcida. A experiência pode transformar-se numa forma de consolo. A água fina desce sobre as flores. O céu é puro porque é indiferente. Todas as alturas são formas de perguntas. Nelas está o medo, o orgulho e o desencanto. Lembro-me da avó abrir a porta, de  a sentir perder alguma dor. Sinto a sua presença nos lugares que habitou. Olho a sua ausência no meio do silêncio, o seu rosto desprotegido, o universo profundo da sua saudade. A habilidade das suas mãos veio de muito longe. E também o seu sorriso suave. Consome-me o conhecimento da sua ausência. Agora entretenho-me a decompor e a recompor o desejo. Tudo é, ao mesmo tempo, inútil e exaustivo. O desejo completa a coragem. É doloroso o momento em que os pássaros caem, quando a voz do imprevisto faz eco nos nossos ouvidos. Junto aos jardins o mundo é feliz. Ou parece. Daqui consigo ouvir a abertura dos silêncios. Os olhos descobrem sozinhos a sua própria ilusão que, muitas vezes, se transforma no seu oposto. A maior parte das estrelas é invisível. Algumas lembranças são como ondas mansas, como flores frescas, como pássaros pousados na folhagem. A saudade de um sorriso é uma espécie de eternidade invertida. Os meus olhos continuam prisioneiros dos pássaros eternos que voam dentro dos teus.


publicado por João Madureira às 07:00
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