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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

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30
Mai19

Poema Infinito (458): Vibrações

João Madureira

 

 

Nomeio o vento e a sua passagem, as árvores e a sua condição, a alegria da infância, os primeiros frios de outono, as diversas flores que habitam as estações do ano. E também as cidades em construção, os gestos que as fazem emergir, o relento, o sol do dia mais próximo e as palavras que ainda são novidade. As multidões parecem florestas de braços caídos, condescendentes, apesar dos seus sentimentos aparentemente meigos. As paisagens multiplicam-se. As tardes parecem Santos crucificados pelo dever e pela fé. Os seus rostos estão nus como os rios. Os seus gestos são os estritamente necessários. Dentro de casa renascem as distâncias. É tempo de grandes descobertas. Os objetos parecem sítios minúsculos. Sentamo-nos e levantamo-nos como se fôssemos absolvidos pela magnanimidade dos sentimentos mais reservados. As pessoas parecem infelizes. As manhãs nascem para lá de nós, assemelham-se a memórias publicadas. A revolução já vai lá longe, pelos caminhos da perdição. As suas grandes questões nunca estiveram em mãos prudentes. Por isso as suas flores murcharam e foram substituídas por imagens semelhantes de plástico. O seu perfume complexo transformou-se em guerra e desilusão. Os camaradas tornaram-se imbecis e fecharam-se em gabinetes com as persianas fechadas. As suas vozes transformaram-se em insólitos pores do sol. E as crianças começaram a demorar ainda mais as suas vozes. A eternidade começou a medir-se por horas. Os velhos começaram a temer os dias. E o amor. E, sobretudo, as memórias. Diminuíram então as arcas e as crianças e escureceram as tardes ainda mais cedo. Até os lábios ficaram parecidos com frutos aborrecidos e maduros de mais. Os caminhos deixaram de ir dar a qualquer lugar. Os gestos começaram a nascer já ensinados, como se fossem coisas definitivas. E nas casas são já mais as esquinas que as paredes. A solidão é uma forma de sombra silenciosa, uma espécie da árvore onde os pássaros ficam prisioneiros. Bastam os pequenos gestos para as palavras mais frágeis se quebrarem como flores secas. As montanhas tornam as terras ainda mais distantes. A boca da noite é triste e incoerente. A claridade transforma a desgraça em loucura evidente. O amor, por vezes, pode ser amargo. As almas mais discretas deslizam de forma indecisa. A bruma da madrugada extingue os pássaros mais atrevidos. Os pequenos insetos perdem-se no interior das horas mais vagas. Vibra dentro de nós o som das despedidas. Os ventos de agosto levaram tudo, mesmo as árvores mais humildes. Os homens procuram uma outra forma de esperança. As paisagens estão mais cansadas e o rio mais imóvel. É tempo de as crianças soltarem os papagaios de papel. A vontade vai reconhecendo o desejo dos corpos estendidos, os seus segredos e os seus níveis de desespero. Tudo parece sobrenatural. Tudo resplandece até ao fim. Não é a geometria quem define a distinção entre as noções do bem e do mal. Imagino agora a dignidade dos mares, a circunstância dos sonhos, a parte invisível de tudo aquilo que é visível. A saudade ganha cada vez mais nitidez. Disfarço-me naquilo que sou. A manhã nasceu no meio da nossa alegria sossegada. O frio é agora uma pequena lembrança. O reflexo da realidade é uma espécie de revelação. Observo a oscilação das cores.

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