Quinta-feira, 6 de Junho de 2019

Poema Infinito (459): O vazio

 

 

Hoje sou eu e o vazio. O vazio e a sua visão panorâmica. A sua mensagem é reflexiva. Pensar,  dor, mas também prazer. É um vício. Amamos perder tempo para ganhar tempo. Afasto as cortinas para poder ver com nitidez os meus pensamentos. Esforço-me por entender os outros. Mas não os entendo. Mas esforço-me. O vazio ali está à nossa espera. É preciso preenchê-lo, mas não com mais vazio. O vazio está repleto de si próprio. Eu acredito. Acredito que não acredito.  Apagar o vazio cria ainda mais vazio. A dor espalha-se. O vazio espalha-se. O vazio que a dor provoca.  O tempo espalha a dor e o vazio. O vazio espalha o tempo. O vazio é tudo. O vazio é nada. O vazio é como o amor. A felicidade é uma espécie de tristeza que passa rápido. É difícil condensar todas as dimensões da satisfação. A satisfação também é uma espécie de vazio, mas preenchido. Viver a felicidade é outra das formas do vazio. É como a felicidade de viver a felicidade. É como sofrer o luxo confortavelmente. As comparações podem ser obscenas. A obscenidade é uma forma de vazio. Produz o vazio. O pavor cria  ainda mais vazio em torno do vazio primordial. O Big Bang nasceu do vazio e para lá caminha, expandindo-se. As pessoas costumam construir enormes parágrafos de vazio. E depois choram porque se sentem vazias. As tuas mãos tocam com suavidade o meu vazio. Sinto o seu carinho. A sua ternura. A sua fome. Deus tem inveja do prazer. Deus também é vazio. Deus criou o vazio e mora dentro dele. Esconde-se nele. As pessoas adoram Deus. E Deus adora o vazio. Até a matéria é feita de vazio. Passamos a vida a esperar. Temos de acreditar. Temos de acreditar no inacreditável. Nenhuma religião vive sem pecado. A religião acredita no vazio e no espaço da sua fé. E na luz que abre caminho através do vazio. A ansiedade é permanente. E também a compaixão. E o deslumbramento. O vazio é a dor perfeita. É uma espécie de rotina maravilhosa. Nada resiste ao tempo. Nada resiste ao vazio. Depois, no meio do vazio, há momentos que não devemos perder. Que não podemos perder. Todas as vidas se dissolvem em ausência. A ausência é outra das formas do vazio. É a ironia a que me faz resistir ao vazio. Dentro de mim reina o caos. É o caos quem cria o vazio. E a mágoa. Dizia a avó que a mágoa era contagiosa. Isso depois de ficar viúva. A viuvez é o vazio pela metade. Oiço agora o rumor das flores, o murmúrio das ervas e o grito das aves que saem do vazio. As estrelas parecem agora mais próximas. Assemelham-se às melodias desconsoladas da infância. O vazio é também uma espécie de beco sem saída. Uma arte limpa. Uma forma de respiração silenciosa. No vazio pode tentar-se indefinidamente. O vazio de agora é diferente do de antigamente. É mais inútil. É existencial. Ninguém percebe o seu destino. O que verdadeiramente dói é aquilo que não se vê. O sentido da vida é inexplicável. Também o vazio é absurdo. E aí estão à nossa frente os terraços do tempo, a Babel dos suspiros, a sábia experiência da violência praticada no paraíso. Toda a sabedoria regressa ao caos. Sinto-me como um mendigo à procura da infância. A chuva é uma espécie de rumor. Caiu antes da noite. A manhã nasceu bela. As crianças sorriem ainda na sua fase de anjos. O mundo começa a reduzir-se. A memória do amor é ridícula. Algumas das pontes da aldeia ameaçam ruína. Do outro lado fica o vazio. Foi lá que nasceu.


publicado por João Madureira às 07:00
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