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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

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13
Jun19

Poema Infinito (460): A tensão da luz

João Madureira

 

 

Enredei-me na luz, na tua luz, e a minha tensão amorteceu. Os fios de claridade assemelham-se a veludo. Por vezes, o crepúsculo dura mais tempo do que parece. O tempo enevoado cheira a erva húmida. Deslizo agradavelmente o olhar palas montanhas. As coisas em redor vêm ao meu encontro. Sinto-me ausente. Dói-me aquilo que não sei dizer. Foram as crianças que me ensinaram o que é a ironia. Apesar de querer ir, continuo a ficar. Sobre a mesa da sala lá estão os panos de renda estreita, os folhos, os trabalhos concluídos pelas mãos quase azuis da mãe. Os regressos podem ser tranquilizadores. Ou inquietantes. As bátegas de chuva uniram o céu e a terra. Resta-nos ainda a expectativa. Foi a brisa que nos juntou. Vejo a chuva mergulhar suavemente no rio e a gotejar sussurradamente nas folhas dos salgueiros. O silêncio é incomensurável. Uma suave cortina de névoa vai tomando conta da luz, das árvores e dos caminhos. A doçura do teu olhar cria em mim uma espécie de tensão quase insuportável. A beleza também pode adquirir contornos indefinidos. Encontro-me e afundo-me na intemporalidade do que é fugaz. O tempo faz com que tudo se alargue e se decomponha. Procurar a rima é um ato medíocre de desespero. São cada vez mais as urtigas e os dentes-de-leão que crescem junto aos muros dos caminhos. A posteridade tem os seus custos. A História paga-se. Junto das ruínas da velha igreja a poeira dança na luz oblíqua. Também por ali esvoaçam pombos assustados com o silêncio. Nas empenas e nas torres, os penitentes medievais flagelantes retorcem-se contra as tentações da carne. Já nem os pecados são o que eram. Tudo agora é inócuo. Mesmo Deus. E os anjos. As aparições já não se dão pela manhãzinha, mas ao lusco-fusco. Com pequenos golos de vinho, pão e presunto, percorremos o caminho caras ao passado. As insurreições fazem parte dele. E também os ícones de Lenine. A capacidade de contrição dos crentes não tem fim. Não tem limites. Nem se lhe conhece princípio. A paz imatura do conformismo dura já há demasiado tempo. A avó, quando estava triste, impunha o silêncio atrás de si, o leite azedava no fervedor e os vidros mais sólidos costumavam estilhaçar-se com a sua sombra. Mesmo a alegria dos outros murchava. Até as horas mais resistentes se partiam ou ficavam embaraçadas. Nessas alturas, a jovialidade dos verões costumava tombar dos muros para o chão. A cristandade continua a basear-se em períodos alternados de glutonaria e jejum. Mesmo quando perdeu a virgindade, a avó não perdeu a serenidade. Árvore a árvore, cresce a encosta. A infelicidade tem raízes profundas. Os mais velhos tropeçam agora nas suas memórias. Alimentam-se de saudades e bolachas. A sua paciência humana já coalhou. A luz fluorescente dos seus olhos é cada vez mais hesitante. O eco das aldeias vazias é ensurdecedor. Com as mãos tentam proteger o tempo que ainda lhes resta. O corpo falha. A cabeça ainda não. Ou não tanto. Nunca tanto se tornou tão pouco. Dizem que é a lei da vida. A manhã pousa nos seus ombros como se fossem estátuas de granito. Parecem cristos pantocratores com a mortalidade a pairar-lhes sobre as cabeças. Para quê correr se não se vai a lado nenhum. A tristeza cada vez pesa mais. As palavras chegam-nos cada vez mais incompletas. As recordações são agora o limiar da nossa consciência.

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