Quinta-feira, 4 de Julho de 2019

Poema Infinito (463): Fixações

 

Incomoda-me o cheiro áspero das flores, as pedras limosas na margem do rio a que nem a tarde consegue aderir. O apelo mais profundo vem da água secreta que corre lá ao fundo da quinta. As borboletas chateiam-me com a sua beleza, com o seu veludo, com as suas danças. As mãos dos mais velhos continuam cheias de inconsoláveis mistérios, repletas de cruzes e estrelas, de nervuras tão nítidas como as das folhas das figueiras. Continuam incompreensíveis porque sempre se julgaram sem importância nenhuma. Os seus olhos já não têm sono, avistam apenas pequenas distâncias, restos de horizontes, ausências. Fixam-se sobretudo nas ausências. Acreditam ao mesmo tempo que tudo é muito e que tudo é pouco. O desejo confunde-se com a ternura. O tempo, que sempre lhes foi longo, agora é curto de mais. Os seus olhos procuram as sombras e os pássaros da madrugada. O céu continua perto da terra, como um sonho interminável. Cantam com pena, rezam com pena, debruçam-se sobre os muros como se fossem muralhas, como se o chão fosse uma espécie de inveja. Deus já não os ouve, não percebe a doçura e o desespero dos seus prantos. Qualquer dia ganham definitivamente o chão raso que lhes deu de comer. Todos sentem que estão de partida. Esta noite andada já tem pouco para andar. A voz adormece-lhes ainda antes de adormecerem. Já esqueceram a recordação do tempo. Deus é cada vez mais um ser indeterminado. O perfume das rosas é doloroso. Enjoa-me a sua densidade. Penso então no vento, na água, nas urzes, na música e nas estrelas que anunciam a alba. O silêncio é ainda maior. A eternidade escorre-me dos dedos como se fosse areia. O som da voz é um sopro. As árvores continuam a aceitar o frio. O último carro de bois faz-me recordar as falas do vento, os braços e as foices, os casebres, as tardes ermas, os pássaros que bebiam do céu os primeiros pingos de chuva. E a D. Marquinhas da Ajuda que falava sozinha e se turbava de palavras para encaminhar as almas mais solitárias. Na sua presença, os animais enlouqueciam e as plantas bravias caíam mortas. Lembro-me ainda dos olhos parados dos meninos com fome, da sua alegria despedaçada, da sua raiva feita de vento e chuva, do seu esquecimento que se transformava num cântico grave e lento. Foram sempre os filhos da inconstância, de tudo o que arde por dentro, da obediência. E do esquecimento. A sua presença era sempre um sinal de partida. Os seus gestos pareciam-se com os últimos desenhos de um pintor moribundo. Entretinham-se a cantar canções mínimas durante um dia inteiro. Os nomes sabem agora a amargo. O tempo transformou-se num caminho estreito. Adormeço dentro da minha solidão. A ponte da imaginação é como um arco-íris. A neblina vai alta. Passeio o desejo de te amar. Vou ver Pedro encher as redes de peixe. E o outro homem prodigioso que transformava a água em vinho. Ainda me consigo entusiasmar com a multiplicação dos pães. O deserto, dizem os profetas, é um lugar milagroso. Lá flutuam os aromas como se fossem coisas vivas. Também foi por lá que Marco António e Cleópatra se apaixonaram pelas cobras e pelo seu veneno. A noite ficou de repente iluminada. O vento matinal dorme lá em baixo, no ermo. Tudo parece extraordinário e excessivo. Tenho pena. Os olhos da verdade já não têm virtude. O Apocalipse não tem interpretação.


publicado por João Madureira às 07:00
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