Quinta-feira, 25 de Julho de 2019

Poema Infinito (466): Sempre

 

A fogueira ardeu durante toda a noite até as nossas lágrimas secarem. Os frutos da árvore do tempo estão já maduros de mais. Oiço as vozes desfeitas pelo desespero. O dilema ganhou a forma de meditação.  Chego e parto. Os olhos dos vivos parecem chagas. Jazem em repouso frio as mãos que arrancaram beleza aos montes que nos rodeiam. A terra dos vinhedos está recalcada. Fermentam nela ainda restos de força e cansaço. Outra vida começa. Outras imagens. A fogueira de lenha é coisa do passado. A fé já não aprecia ser aquecida. A terra parece mais humana, mais funda. Tento inspirar-me na sua ternura. A forma do tempo é mais límpida. O vento faz oscilar a razão. A luz da madrugada é pesada e fria. Alguém acena no meio da bruma. Parece que grita mas não se ouve som nenhum. Os caminhos são agora mais vagos. Sinto a expressão da sua angústia. Toda a beleza possui o seu próprio sentido secreto. Alguém desenhou no céu uma lua nova. Corre na velha árvore do largo uma seiva cansada. As suas folhas parecem versos esgotados. Nos baixios, a água está parada. Lembro-me da velocidade antiga do rio, da alegria das crianças, da quentura da mães, do olhar fraterno dos avós e da força interior do olhar dos pais. Ao sol levedava a grandeza das colheitas, a chuva descia sobre nós de forma alada. Os pássaros mais alegres bebiam as gotas matutinas do orvalho. Dói-me a ausência da voz da mãe. Custa viver no Purgatório e escutar o silêncio do Céu. A covardia vive agora no Paraíso. Foge-nos a forma das coisas, o abandono dos ninhos. A vida descansa na terra, nas sementes, nos caules e nos animais. Apenas um galo cantou na escuridão para afastar o medo. Por vezes desperto dentro de uma onda de calor. A aldeia parece uma ilha rodeado de lagos, bosques e luar celeste. Fecharam há pouco as portas a essa ilusão. As horas são agora mais despidas e incertas. Muita gente nasceu aqui. Muita gente viveu aqui. Muita gente morreu aqui. Para sempre. A mentira dos sonhos também pode ser uma forma de beleza. Ergo o olhos da terra que está de poulo. Poucas são as leiras semeadas. As nuvens são parecidas com as de antigamente. Dizem que as tempestades também possuem a mesma ferocidade. E que as quimeras, as ambições e os desejos se assemelham a ecos dos gritos antigos. Os beijos e os coitos são agora definidos e consumados a céu aberto. Já ninguém sonha com a lei da ocasião. A inocência nunca passou de uma promessa. A memória das suas brasas continua a queimar-me por dentro. Que alegria tão triste produziu. Um clarão de fantasia iluminou a escuridão. As mãos dos cegos desenvolvem sentimentos tácteis. De um lado terra.  Do outro lado gente. Pela janela aberta entram segmentos dóceis do firmamento. Sinto o chão a arrefecer. Os sonhos também podem ser desumanos. O fumo sai das chaminés das velhas casas de pedra com a sua forma irónica. Quem olha consente. Os milagres davam-se sempre durante o inverno.  Apesar do frio, tudo ressurgia como se fosse pão a levedar. Banho o olhar no rio claro que passa na cortinha. A memória da dor oscila, mas não muda de condição. A distância do desejo brilha junto ao outeiro. Parece uma sugestão de verdade. A vida já não leveda como o pão. Os caminhos adquiriram o azedume da erva. Os rouxinóis parecem meditar os seus trinados. O Senhor do Calvário continua mudo e dorido como sempre.


publicado por João Madureira às 07:00
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