Quarta-feira, 14 de Agosto de 2019

Poema Infinito (469): O labirinto

 

 

Não existe no mundo pior coisa do que a caridade. A conversa começa a entreter o fastio. Cada instante é perpétuo. Regresso à zona tímida das palavras, onde estão os ninhos das sereias. Suspeito das ansiedades caseiras. A energia dos restos começa a dissipar-se. A água pesada petrifica os sentimentos. Clareia no caminho a intensidade dos instantes. Tenho dificuldade em caminhar por entre as acácias da infância. Sinto ferver o ruído funesto dos aciprestes. A sua seiva deixou de ser um bálsamo. Sinto o modo delicado de escorregar no teu corpo luminoso. O sol chispa na superfície da água. As árvores das margens desenham janelas no seu fundo. O tempo demora a chegar ao pé de nós. As mulheres parecem estar presas nas varandas, mantendo as casas à tona do esquecimento. Por vezes sinto-me a tocar noutro mundo. As tábuas do soalho da velha casa da avó rangem. Assemelham-se a suspiros. Alguém peneira farinha na casa ao lado. Foge o tempo pelo meio dos dedos cansados. Sinto-me excitado com tanta tranquilidade. As conversas à hora de jantar têm a forma de raízes. A imaginação incha com a vontade das histórias. A memória continua a vacilar, a encher-se de esforço, a repetir prólogos, a ir adivinhando razões desdobradas, a fixar-se nas portas da razão. As palavras continuam a avançar. A atropelar-se. A deixar-se ir. Depois transformam-se em enguias. A sala esvaziou-se dos suspiros. A alegria humedeceu. Continua o entusiasmo pelas mentiras. A morte da avó começou numa espécie de desvanecimento. As conclusões já ela as tinha tirado há muito. Conhecia perfeitamente as confissões dos santos, as suas confidências e até as suas crueldades. Repetir paixões é uma outra forma de melancolia. A avó recusou-se sempre a mostrar as indecências ao avó.  Ao exagero sucedem-se as catástrofes. Deus costuma olhar para o outro lado, onde mora a impaciência e a dor. Com o vendaval e a chuva muitas árvores aterraram. A primavera apareceu de um dia para o outro. Na natureza, por vezes, a ordem contraria as circunstâncias. A avó costumava enfrentar os crepúsculos. Dizia que detestava trocar de lugar. O avô fugia dos banhos de luz. Já o senhor António andava a tecer a corda com que se havia de enforcar. Os segredos envenenam os sentimentos. Ninguém reparou nos pequenos pormenores, nos exíguos desempenhos da sua loucura. Nem a avó, que estava vazia de pecados. Entre um espaço e outro nada existia, apenas o infinito. Ninguém se pode agarrar a um torvelinho desses. O pai, até morrer, exercitou o retardamento dos ímpetos de cólera. Foi roído por dentro. As certezas já deixaram de ter significado. A arte de iludir é consequência da arte de agradar. Quando escuto com mais atenção consigo distinguir alguns dos murmúrios que por aqui ficaram, colados às paredes, em cima das mesas, dentro das gavetas. Também oiço o vazio. Sorrio. Não me apetece chorar. Tudo agora revela excesso de premeditação. Enche-se a boca de palavras e não se consegue dizer nada. Cada um constrói a sua própria fome e a sua fartura. Esta nova realidade necessita de ser alimentada de outra forma. O sítio das palavras parece um despropósito. A beleza, por vezes, traz agarrada a si o medo. Escuto tudo o que é imenso pelo ouvido da avó. Aconchego-me dentro do seu labirinto.


publicado por João Madureira às 07:00
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