Quinta-feira, 22 de Agosto de 2019

Poema Infinito (470): Do lado do espaço

 

 

O lado positivo do amor resulta da predisposição. Gosto de jogar o jogo da intimidade e do repouso. A vida respira. Sinto os sítios com renovada ansiedade. O cio abre-se à liberdade. Depois é o desejo que se evade. É débil a oferta dos afetos. Acostumas as tuas mãos à tristeza da água. Os nossos olhos estão gastos de saudade. Por aquele caminho muito jumento passou a caminho do velho moinho. Colhiam-se amoras nas silvas. Dos campos já não retornam ternuras. Deus entornou o cálice da eternidade. A cor iluminada das lágrimas comove todo o tipo de inquietação. Dormem as sombras longe das estrelas. Os gritos são lisos e frágeis. Os suspiros vagarosos. Esta solidão provoca tonturas. O medo vibra. É débil a oferta dos afetos. A guerra é uma espécie de círio pascal que não para de arder. A paz é impura e gelada. O ódio é duradouro. Os homens são como os dias transitórios. É infindo o outono. O seu tecido veste o tempo. O tempo é uma aranha que constrói a sua teia com as horas a consumir. Durmo como um peregrino vagaroso e febril. Impõe-se então o mar com os seus gestos firmes e a sua profunda atração. Chega a névoa entre as árvores. As águas abrem linhas pelo meio dos aloendros. Duvido do tempo incerto. As terras estão de pousio. Os bois ruminam. As carroças já não sabem ir nem como regressar. O inverno matou as profissões que tinham acesso ao ar. Já não há quem ande lá por fora. Os animais pastoreiam sozinhos, limitados por cercas. As ribeiras tanto secam como transbordam. Os frutos apodrecem dentro da sua madura tristeza. O inverno repete-se. Continua a chacina dos animais. Os temporais devoram os caminhos das serras. Os sinais de ruína acumulam-se. Recordo as mãos dos lavradores a abrirem os sulcos na terra com os seus arados, os grãos de centeio a caírem como chuva na terra, os semeadores a progredirem nos sulcos, os seus vultos a movimentarem-se de impaciência. E também a vibração fixa dos olhares. Agora os fornos do povo estão frios. Os céus parecem curvados de tristeza. O desejo já não faz parte das suas vidas. O silêncio parece deter a próxima floração. Crescem as arestas. A chuva abafa os ruídos. Daqui vê-se o caos. A estabilidade das estradas de asfalto. Os declives. O ócio. Os mais velhos continuam com o vício de fumar saudades. Chupam o cigarro até ao fim. As janelas parecem arder por dentro. O esquecimento mata as lembranças. Qualquer dia Deus deita-lhes a mão. As saudades ardem mal.  Ali está a avó sentada como se fosse o sol-pôr. As suas mãos parecem uma tapeçaria. Os seus últimos dias foram feitos de linho. À sua despedida vieram pássaros lá das alturas e pousaram no corrimão da varanda. A mãe desfez a sombra com as mãos. E bordou nuvens. E lágrimas. E a dor que todos sentíamos. As palavras transformaram-se em círios. O presente e o passado deixaram de fazer sentido. O futuro deixou de existir. Sinto que preciso do campo. Das folhas e das brisas. Dos rios transparentes. A luz deixou de ter a firmeza de antigamente. O dia ficou claro. O vento serenou. Lembro-me como a avó comia os figos com pão. Caminho pelo campo verde como se caminhasse na lua. Passam os anjos com as suas espadas de silêncio por cima das muralhas. Sinto que pertenço a um outro espaço. A tarde sussurra tristeza. A dor transborda. O mundo acaba de acabar.


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | comentar | favorito

.mais sobre mim


. ver perfil

. seguir perfil

. 13 seguidores

.pesquisar

 

.Novembro 2019

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9


18
19
20
21
22
23

24
25
26
27
28
29
30


.Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

.posts recentes

. 469 - Pérolas e Diamantes...

. Na aldeia

. Noturno

. ST

. Poema Infinito (482): Res...

. No Barroso

. No Louvre

. 468 - Pérolas e Diamantes...

. AB

. VS3

. VS2

. Poema Infinito (481): Que...

. VS

. CL

. 467 - Pérolas e Diamantes...

. Pisões

. Misarela

. Olhares

. Poema Infinito (480): As ...

. Na Abobeleira

. Barroso

. 466 - Pérolas e Diamantes...

. São Sebastião - Alturas d...

. Em Coimbra

. No Louvre

. Poema Infinito (479): Ao ...

. No Louvre

. No Louvre

. 465 - Pérolas e Diamantes...

. ST

. JVF

. Interiores

. Poema Infinito (478): O V...

. ST

. No Louvre

. 464 - Pérolas e Diamantes...

. No Porto

. Em Alhariz

. Em Alhariz

. Poema Infinito (477): Tox...

. Em Alhariz

. Em Alhariz

. 463 - Pérolas e Diamantes...

. Amizade

. Na feira

. Interiores

. Poema Infinito (476): Via...

. ST

. Expressões

. 462 - Pérolas e Diamantes...

.arquivos

. Novembro 2019

. Outubro 2019

. Setembro 2019

. Agosto 2019

. Julho 2019

. Junho 2019

. Maio 2019

. Abril 2019

. Março 2019

. Fevereiro 2019

. Janeiro 2019

. Dezembro 2018

. Novembro 2018

. Outubro 2018

. Setembro 2018

. Agosto 2018

. Julho 2018

. Junho 2018

. Maio 2018

. Abril 2018

. Março 2018

. Fevereiro 2018

. Janeiro 2018

. Dezembro 2017

. Novembro 2017

. Outubro 2017

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

.favoritos

. Poema Infinito (404): Cri...

.Visitas

.A Li(n)gar