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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

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29
Ago19

Poema Infinito (471): O sossego

João Madureira

 

 

Um Cristo sequinho olha para mim como se tivesse fome. Sei que ele partiu lá de longe para outras terras ainda mais distantes. Dizem que não foi homem de desistir. As suas palavras serenas não conseguiram semear a paz. Tateio as paredes perseguido pelos seres da escuridão. Oiço o ar a desembocar no labirinto. Com ele, todo o cuidado é pouco. Aconchego-me no frio da cama. A mãe morreu devagar, pensando que já ninguém pensava nela. Os seus olhos encheram-se de imagens desfocadas. A sua memória estava repleta de retalhos. Os infelizes anseiam por desastres. O tempo vai e volta como se fosse um só. Absorvo-me no cruel exercício da abstração. A fragilidade é uma forma de punição humana. A curiosidade dos outros adquire a forma de pedradas. É uma outra configuração de hostilidade. As paredes de granito grosso amortecem os gritos do exterior. Chegam até nós os sons reduzidos de uma voz decepada. Nem sempre se acerta com o destino. Era frequente a avó conversar com o sossego, transformar os objetos em uso, caminhar as distâncias de forma sábia, respeitar as estranhezas, atenuar os acessos de loucura dos vizinhos, arredondar as más notícias, equilibrar os sorrisos, compor os insucessos, fazer engolir os maus orgulhos aos desprezíveis. Depois da morte do avô, acendeu-se-lhe no olhar uma luz difusa de sofrimento. Os seus olhos começaram a penetrar a escuridão. Os anos morderam-lhe ainda mais um pouco a sua singela beleza. Nos se demorava nem no riso, nem no choro. Poupava nas emoções. Não desperdiçava nada. Apenas não poupava no silêncio. Ria-se algumas vezes para que a raiva não a cansasse em demasia. Conseguia limpar as coisas interiormente. Apesar da magreza, o espaço crescia dentro dela. A justeza encontra causas, não desculpas.  A ação compensava-lhe os motivos. Eu costumava rir-me com as suas fantasias, com os seus entendimentos e com as minhas obsessões. As palavras só interessam quando queremos compreender. Comecei a alinhavar invenções e a desenvolver esquisitices. Arranjei feitio para a vergonha. Nela tudo era transparente, menos o desgosto. O extremo da paisagem que daqui observo parece o infinito. A memória força-me a arranjar personagens que anteveem o destino. É da tradição os velhos avisarem os novos sobre as tristezas da idade. As nossas conversas estão repletas de curvas. Há palavras que levantam iras e outras que impelem ao perdão. Nas noites de verão, a obscuridade possui outra leveza. Há pessoas que arreliam as brisas e as afastam dos jardins. A história não costuma registar esquecimentos. As ofensas costumam vir carregadas de pólen. Querem parecer inofensivas. A razão não se esconde atrás de segredos. A desilusão costuma magoar mais do que a culpa. Quando se ouve bem ganha-se confiança. A arte está em oscilarmos e não nos desequilibrarmos. Também eu já tive a minha ocasião de pássaro, inventando grandes paixões, coisas gloriosas, esvoaçando de espanto, debicando raios de luz. Agora penso nos enigmas, na clareza dos perigos, na falência dos sonhos. Os sonhos têm agora asas grosseiras. Distraímo-nos demasiadamente com o mal. A bondade emagreceu, curvou-se, ficou cheia de dores. Percorro devagar o caminho de casa. No quintal, a folhagem ganhou a cor vermelha da fatalidade.

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