Quinta-feira, 5 de Setembro de 2019

Poema Infinito (472): O azedume das flores

 

 

Para agravar a minha admiração por Voltaire, também eu resolvi dedicar-me a cultivar o meu jardim, eu que não tenho jardim nenhum e apenas passeio nos que são públicos. Rego as flores com música, defino-lhes a cor pela premeditação da forma, acarinho as justificações do mal, pelo bem que lhes quero. Quero ignorar a razão para salvar o mundo. Quero ignorar o mundo para salvar a razão. Mas a cor do crepúsculo impõe-me dúvidas. Uno o pudor do desejo à memória dos vivos. Andamos a roubar os sonhos uns aos outros, por puro ciúme. Pertencemos ao cenário inquieto da noite. O som do luar torna a noite calma. A brisa desliza em surdina pela folhagem das árvores. Alguns sítios explicam-se, outros defendem-se. É a clara falência dos sonhos. Os grãos de milho descansam na terra, alisados pelo tempo. As mãos evidenciam os frágeis tecidos da desgraça. Nestas horas impera o senso comum. Poucas são as fantasias. A loucura vive do amor extremo. Há perguntas a que não se pode responder. As estações do ano agora nascem maldispostas, fatigadas, com os dias obsessivos. As flores chegam a azedar. O vento curva-se. E as sombras parecem pinturas abstratas, de tão amarfanhadas. Continua a cumprir-se o trabalho. Os sons mudam de lugar, elevam-se para logo amortecerem. O ar modificou a fina vaporação da erva. A água agora imita a imperfeição do pânico. A avó confiava apenas nos sentidos. A avó estende as suas mãos para a floreira da memória e os seus olhos ganham uma espécie de luz própria do gelo. A mãe tinha os olhos desvairados da mãe dela. Os campos agora são tédio e indiferença. O silêncio ocupa as vozes. São descuidados os poucos ruídos produzidos pela única criança que habita na aldeia. Alguém nos arrasta para o seu próprio naufrágio. É a hora das catástrofes. Das memórias que enlouquecem, das visões aciduladas, de ler as searas, de encaminhar as águas que se enganaram, de asfaltar o tédio, de perseguir com o olhar o voo complexo das aves do desgosto e da solidão. Borboletas de luz atravessam o espelho do velho armário. Os meus dedos viajam pelo teu corpo. O seu mapa tanto perde como ganha sentido. As fotografias antigas parecem-se todas umas com as outras. Descubro nelas um estranho equilíbrio entre peso e leveza. Os rostos revelam uma inimitável lividez. Uma sensibilidade fatal, rígida e involuntária. As pessoas ganharam definitivamente a severidade dos objetos. Só os segredos se movem. A frescura da velha casa é pegajosa. As palavras perderam o embalo e dissipam-se sobre o efeito do seu próprio vazio. Lembram os murmúrios dos amantes num jardim. O tempo de espera depende das circunstâncias. A memória não tem ângulos. A despedida não vale a frieza do encontro. As formas poucas vezes coincidem com a razão. Tudo acaba por murchar, até os pormenores. A velhice mostra os dentes e boceja. Tudo se transforma numa graça. Até o brilho hostil da loucura. O ar continua a estremecer. O freixo da quinta morreu de doença. Já ninguém mais poderá dormir a sesta de verão à sua sombra. A memória adquiriu tons de cólera. O medo transformou-se em excitação. As couves crescem como se fossem árvores. O vento frio do norte fez alastrar os líquenes. Alguém me pergunta se sou daqui. A verdade é que não lhe sei responder. Penso então na secreta identidade que me possa devolver alguns prazeres da infância.


publicado por João Madureira às 07:00
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