Quinta-feira, 12 de Setembro de 2019

Poema Infinito (473): Dissonâncias

 

 

É da tradição: o que está farto não entende o faminto. A fadiga parda e o vazio da alma devastaram inexoravelmente o rosto dos homens que se sentam debaixo do velho carvalho à espera do jantar e, mais logo, da morte. Aprendi muito novo a repartir a tristeza pelos dias. É triste ver envelhecer. É triste envelhecer. É triste entristecer. Demoramos a tristeza no adeus envelhecido das mãos, no equilíbrio azul das extensas manhãs de verão, na solidão do sol que teima em penetrar por entre a folhagem das árvores velhas e teimosas do jardim. O rumor das casas também é triste. E a solidão do vento. E o fundo de verdura que costuma fechar o outono. E os gestos da manhã são tão tristes que parecem alegres. As ruas assemelham-se a pontes rebentadas. A guerra atual é feita com as palavras mais tristes. Os dias morrem todas as tardes. Aperta-nos a paciência como se fosse um sapato novo em dia de boda. A dor é uma espécie de juramento condescendente. A esperança segue ao nosso lado com os passos cansados de um lobo preguiçoso. Por vezes é bom irmos até onde os pés nos podem levar. Os cães presos ladram a toda a gente. As pessoas temporariamente felizes reluzem como se tivessem sido untadas com azeite. Sobe-lhes o calor à cara. Ficam abrasadas e leves. Quando a amargura toma de novo conta delas, acariciam a cabeça levemente inclinada e depois os seus dedos transformam-se em ferro e começam a tremer e a enferrujar de imediato. Depois principiam a chorar como se estivéssemos em maio e as suas lágrimas fossem gotas de chuva desgraçadas. De longe vêm alguns amigos. E também alguns sonhos. As sombras derramam as casas. O medo é progressivo. O medo costuma nascer de uma condição horizontal. A luz exerce então o seu fascínio, conduz as linhas ao ponto corrosivo das imagens. As cores ficam ténues. As formas excedem os volumes. As imagens definem-se à tona da água. Isola-se a dor e o tempo dissonante. A chuva deixou de cintilar e as suas águas disseminaram-se em torno do horizonte. Agora já não pesam, enganam. Já não se costuma exaltar o tempo das colheitas. O verde dos campos é breve. O ar é descontínuo. No ar, a mão descreve a distância entre as montanhas e sustém a realidade. As heras enfiam-se pelas frestas. As mãos já não confiam nas águas tépidas. Por vezes, o amor cresce e sufoca dentro de nós. O travo da vingança é muito amargo. O tempo tem tendência a ficar cada vez mais escuro. A fé nos santinhos já se finou há muito tempo. As fantasias agora são outras. Os segredos enchem-se e despejam-se de vazio. Os olhares dos jovens são mais rápidos que setas. Cupido embebeda-se de vinho aquecido com canela. Sente-se a maldade logo pela manhãzinha. Apesar da rapidez, tudo demora mais tempo do que o previsto: o amor, a amizade, a perplexidade, a construção dos pormenores, as conversas. Preparam-se as conversas como fazendo parte de uma ementa de restaurante. O amor já não resiste à combustão. As amizades são pálidas e incertas. O tempo é transversal. As profecias não passam de horóscopos incendiados. Sobre a mesa repousa o pão. O amor não foi ao forno. Já não há maneira de usar os velhos costumes. Lembro-me do cheiro a mel e a incenso que definiam o tempo da Páscoa. Sente-se a vibração do medo. Os sorrisos assemelham-se a rumores secos. As chuvas de inverno abalam as frágeis margens do rio.


publicado por João Madureira às 07:00
link do post | favorito
Comentar:

CorretorEmoji

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.


.mais sobre mim


. ver perfil

. seguir perfil

. 13 seguidores

.pesquisar

 

.Dezembro 2019

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9
13
14

15
16
17
18
19
20
21

22
23
24
25
26
27
28

29
30
31


.Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

.posts recentes

. Poema Infinito (486): Dis...

. Em Paris

. Em Paris

. 472 - Pérolas e Diamantes...

. Feira dos Santos

. ST

. Na cozinha

. Poema Infinito (485): Sed...

. Olhares

. Vacas e balizas

. 471 - Pérolas e Diamantes...

. Em Amarante - Cultura que...

. Na feira

. No Porto

. Poema Infinito (484): Eco...

. Chega de bois em Boticas

. No Barroso

. 470 - Pérolas e Diamantes...

. Interiores

. Castelo de Montalegre

. No Barroso

. Poema Infinito (483): Ilu...

. No Barroso

. Na aldeia

. 469 - Pérolas e Diamantes...

. Na aldeia

. Noturno

. ST

. Poema Infinito (482): Res...

. No Barroso

. No Louvre

. 468 - Pérolas e Diamantes...

. AB

. VS3

. VS2

. Poema Infinito (481): Que...

. VS

. CL

. 467 - Pérolas e Diamantes...

. Pisões

. Misarela

. Olhares

. Poema Infinito (480): As ...

. Na Abobeleira

. Barroso

. 466 - Pérolas e Diamantes...

. São Sebastião - Alturas d...

. Em Coimbra

. No Louvre

. Poema Infinito (479): Ao ...

.arquivos

. Dezembro 2019

. Novembro 2019

. Outubro 2019

. Setembro 2019

. Agosto 2019

. Julho 2019

. Junho 2019

. Maio 2019

. Abril 2019

. Março 2019

. Fevereiro 2019

. Janeiro 2019

. Dezembro 2018

. Novembro 2018

. Outubro 2018

. Setembro 2018

. Agosto 2018

. Julho 2018

. Junho 2018

. Maio 2018

. Abril 2018

. Março 2018

. Fevereiro 2018

. Janeiro 2018

. Dezembro 2017

. Novembro 2017

. Outubro 2017

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

.favoritos

. Poema Infinito (404): Cri...

.Visitas

.A Li(n)gar