Quinta-feira, 19 de Setembro de 2019

Poema Infinito (474): Vento

 

Dizem que, por vezes, o vento bom sopra do Sul. Eu sou de outro ponto cardeal. Sou do vento, sopre ele de onde soprar. Sou do vento. Da ventania e do vendaval. O vento é vário. O Sol flutua nos meus olhos com a sua brancura azulada. Depois do verão, o outono veio rumorejar a sua queda. As folhas. A seguir, o inverno amontoará a neve, o tédio, os dias e o resto do mundo que pode sobejar. Tremem-me as sombras nas mãos. E os livros. O silêncio do tempo continua a derrubar os muros. Ninguém se liberta da ditadura do silêncio. As asas dos anjos começaram a perder as penas. As linhas do Céu perderam a sua harmonia. Deus gesticula os braços e as estrelas fazem-se em pedaços. Deus deixou de ser magnífico. Dizem que inverteu o Big Bang. Não sei de onde nasce esta quietude. Milhares de aves levantam do chão em silêncio. O amor transforma-se em luz. Os olhares organizam o caos. As borboletas desarrumam as palavras. O desejo rebenta com a gramática e com a semântica. O crepúsculo fixa a dimensão exótica da luz. A semântica da sedução resultará na pose. A gramática da sedução ou é orgástica ou não existe. Alguém beija um rosário. Eu prefiro dedicar-me aos corpos. À indelicada linguagem das cópulas. À sinfonia delicada da penetração. Ao êxtase. A realidade também pode ser magnificente. Não existe apoteose no desespero. No amor não há redenção, mas fogo. Por isso, o universo é infinito. As estrelas penetraram o arco-íris. As ruturas resultam da linguagem conceitual dos viajantes, da indecisão das palavras solitárias, da vulnerabilidade das indecisões divinas, do pressentimento luminoso dos rostos, da exigência estética da sedução, da ressonância da indiferença e, sobretudo, da relação prodigiosamente incoerente estabelecida entre Deus e o Diabo. Os poetas e os deuses gostam de improvisar o seu próprio desassossego, de amadurecer os seus remorsos, de criar os seus exílios, de agitar a solidão, de golpear o silêncio, de transformar o amor em tragédia, de transformar a tragédia em amor. Uma bruma antiga abraça os templos transformando as revoltas em inutilidade. A vontade de resistir transformou-se em choro. O tempo é a hipérbole ritual do infinito. A memória separa a verdade do destino. A chuva transformou o silêncio numa espécie de sermão místico. O desaparecimento demora-se mais um pouco nos ângulos barrocos das paredes graníticas das casas. Alguns lamentos continuam a nascer por entre as fendas dos muros, pelas frestas dos telhados, de dentro das arcas e das malas fechadas pelos anos e pela tristeza. Um frio permanente continua depositado junto à lareira. As recordações são como relíquias onde ninguém gosta de mexer para não estragar. Deus e os homens abandonaram a aldeia. Dizem que também pode haver beleza nas imagens mortas. Agora escrevo sobre a nostalgia da sinceridade, sobre a reconstituição inútil das penumbras e das cintilações. Também o amor carnal é metafísica. Daí resulta a instabilidade religiosa, o desprezo, a justificação dos hábitos, a magnitude sobrenatural da individualidade e a interpretação moral da vontade. As linhas da vida são diversas. Uma chuva violenta começou a cair sobre a madrugada. Os gritos eróticos organizam-me a química orgânica do tempo e dos fluidos. Flores matinais deslizam sobre o meu pénis.


publicado por João Madureira às 07:00
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