Quinta-feira, 26 de Setembro de 2019

Poema Infinito (475): Brevidade

 

 

A luz apura a transparência dos corpos, os seus desejos, a sua alquimia, os seus sustos e os seus deslumbramentos. O amor traz sempre consequências. As paisagens de hoje estão carregadas de ironia. Também elas ficaram obesas. Cintilam nelas as papoilas. As mães rezam nos templos. A vida é breve, diz o sino da igreja. Apenas as palavras têm o tamanho do mundo, encostadas ao destino, perdidas dentro de si próprias. Os homens procuram os seus passos nos velhos caminhos. As pombas ficaram para trás, na memória, fixando o tempo e os ninhos, enrodilhando-se dentro dos seus voos secos. Os aromas fazem parte das distâncias. Tenho agora a vontade do vento. Os voos das cegonhas continuam infantis, semelhantes a murmúrios. A vida é feita de eclipses. Quando a escuridão me invade, nascem-me pequenas estrelas nas mãos. A infância está cheia de gestos avulsos. Lembro-me dos dedos ásperos da avó pelo excesso de lavagens, da sua versão de mazelas. Agora rimo-nos de tudo: dos enigmas, das adivinhas, dos labirintos, da dor. A intenção é criar desconforto, dar espetáculo, esgrimir perguntas, desfazer memórias, esconder a pequenez dos sentimentos de cada um. Os sonhos são mudos e a preto e branco. Exibimo-nos no lado escondido das janelas, onde as sombras se congestionam. Entusiasmamo-nos com o pouco tempo que nos resta. O tempo finge procurar coisas importantes dentro das algibeiras. É cruel a sua determinação. É natural que as coisas se transformem, que se alarguem, que se aprofundem dentro da sua própria cor. É natural que os vinhos fermentem nas adegas. A ordem dentro de casa é sempre mais inofensiva, destina-se só a definir o carinho e a proteção. Houve tempo em que nas águas do rio se lavavam ao mesmo tempo os pés e os pecados. E também as partes íntimas. Os poetas eram como estaleiros incandescentes, heréticos. Conseguiam descrever o inferno porque viviam dentro dele. Nesses tempos, as musas eram mimosas e ardentes. A decifração era o seu sexto sentido. É cada vez mais fácil atingir o ponto de impaciência, ler os indícios, harmonizar os apelidos, abarcar as influências. Ser tão letrado que se é ignorante sem se saber. A obscenidade é inglesa. O inferno não é fogo, é distância, é frieza, é má vontade. Eu gosto de espalhar devagar a limpidez, de afastar as horas, de sentir o meu anjo da guarda a abrir e a estender as asas. As recordações dissolvem-se em bancos de névoa. Algumas almas antigas estendem-se ao sol. Quando posso, rejeito o convite das insónias. A dor é essencial para escrever poemas. O despeito também mata. E a teologia. E as relações íntimas. E o ceticismo. A vingança é a forma humana de amar uma má ideia. A abundância resulta em fracasso. O orgulho arranca-nos a alma. Os afetos criam rivalidades. Todos pecamos por insensatez. Foi o cavalo de Calígula que o levou à ruína. Os avós oscilam dentro da fotografia. Sorriem como se fossem o seu próprio lugar. Nunca consegui desvendar o mistério das suas conversas. Apenas sentia as suas palavras avançarem. Depois atropelavam-se antes de chegarem a fazer sentido. A meditação também necessita de um sentido.  É a inveja que azeda o vinho, costumava dizer a mãe. Coincidiu a conclusão com o desvanecimento. A paciência transformou-se em dor. A paciência transformou-se. A dor também.


publicado por João Madureira às 07:00
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