Quinta-feira, 3 de Outubro de 2019

Poema Infinito (476): Viagem

 

 

Reguei as palavras logo pela manhã para as ver crescer como se fossem anjos atordoados pelos sinais de pontuação. Abri os meus olhos interiores e vi coisas impossíveis. A linguagem verbal está cheia de febre. Recalco a consciência do que se chama razão. Descubro uma nova espécie de esquecimento: a assimilação. Procuro quem começou a esconder palavras dentro de outras palavras. Tento aproximar os sons dos seus sentidos. Afinal, onde estão as palavras puras? O ar da manhã começou a cair de forma subliminar. O tempo está a mudar. Os demónios tomaram conta da continuidade e das evidências. Rio-me do niilismo, como se isso fosse possível. Renova-se a ilusão, a histeria, o deslumbramento. A manhã está feita de uma matemática singela. A eternidade caiu morta aos pés de Deus. Os ladrões já não acreditam em paixões. Chove extraordinariamente em cima da música de Debussy. Os duendes sorriem. As teclas do piano parecem rosas brancas fixas a dedos pretos. A tristeza emudece repentinamente. Andam por aí muitos sonhos vagos, muito milagre escondido, muito sorriso consolado, muito querubim sério, muito anjo amoral. As velhas poesias parecem pentagramas. Parecem tristes as casas muradas. Os que chegam olham para os que partem. Os que partem sorriem para os que chegam. Só os patetas dizem ter lido Joyce. Os seus livros inspiraram a bomba atómica. Ele pensava que apenas seriam o protótipo de uma nova metralhadora. O futuro é sempre incerto. Alguém grita por um pouco de amor. Uma mãe chora porque não consegue encontrar o infinito para dar ao seu filho. Falta alguma razão às palavras tolerantes. Agora colonizam-se as madrugadas. Os maus hábitos custam muito a perder. Falta amor ao amor. A beleza da arte foi toda devorada por Picasso. As bombas sobre Guernica não foram em vão. Secaram os sorrisos, o pão, a luz. Tudo ficou mais intolerável. Sobretudo a crença na humanidade, já que da crença na divindade nem é bom falar. O demónio, esse, ficou mais corpulento. Pousou uma luz insuportável sob as memórias antigas. É bom não esquecer a dor dos outros para aguentarmos a nossa. Misturam a política com a estricnina. Agora dói-nos o lado esquerdo da alma, os disparates e as horas apaziguadoras. Já nada é seguro. O lirismo abandonou as estátuas. A impaciência agita as estrelas mais pálidas. Antigamente tinha-se vergonha de chorar. Agora chora-se por tudo e por nada. Os beijos são de cristal, os escândalos oxidaram a honra e as aves ficaram trôpegas. O vento alisa os caminhos e a minha raiva. As avós já não cantam, murmuram. À arte transformaram-na num truísmo. As mãos deixaram de organizar, de definir, de acender o lume. Os dedos teclam páginas e páginas de ridículas sentenças judiciárias. Algumas aranhas esperam as moscas. Outras esperam as aranhas que esperam as moscas. O que mais cintila são os condicionalismos, os nacionalismos, as incompatibilidades reconfortáveis, as uniões de facto, o facto das desuniões, a violência da vergonha. Transformaram o mar Mediterrâneo numa mortalha para emigrantes. Por cá viaja-se muito, diariamente, sempre no mesmo sentido. É ir e vir. É vir e ir. Por isso é que os nossos sonhos estão sempre cansados. Engordamos os corpos e emagrecemos a poesia. Também para o que ela serve...


publicado por João Madureira às 07:00
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