Quinta-feira, 10 de Outubro de 2019

Poema Infinito (477): Toxicidade

 

 

A ansiedade bate ao ritmo da hipertensão: forte. A verdade, por vezes, nasce das ruminações. Dizem que os maus poetas são bons críticos. A impertinência impede-lhes a inspiração. Um caralho que os foda. A sua inspiração está condicionada pela solidão. Gostam de inventar rivalidades. Todas as óperas lhes parecem originais. São como antigos burgueses desesperados por verem revolucionários janotas e excêntricos. Acham os aplausos ridículos, como de facto são. Todos pecam por insensatez. Salva-os o prazer do risco. Os caminhos sofisticados são sempre os mais vulneráveis. As folhas das cepas perderam o seu ruivo esplendor e começaram a apodrecer. A ambição ressente-se do tédio. A vocação desafina com a impaciência. A dor, nos medíocres, é um vício, costuma dar-se mal com a aristocracia do espírito. A obscuridade das capelas é sempre ameaçadora. O desprezo e a ignorância são a manjedoura do lirismo provinciano. Sempre foi assim. Sempre assim será. Os primeiros versos são delativos. De sentimento único, repletos de afinidades e desdenho. O perdão tem sentido único. A realidade é murcha. As paixões são como tempestades com um Deus morto lá pelo meio. Os enigmas expandem-se. As tragédias baseiam-se na traição e nos equívocos. A glória resulta sempre da publicidade, do embelezamento da própria ficção. Formámo-nos na abstinência do convívio, no silêncio do romance, na infatigável história do cavaleiro da triste figura que não anda nem desanda. Já ninguém mata a sede com água benta. Sonhar a felicidade é uma forma de ser como a Bela Adormecida. Agora lemos a infelicidade nos rótulos dos medicamentos, nos gestos viciados, nas conversas barulhentas, no afastamento dos nomes e dos olhares. O amor tem a consistência da gelatina. Vivemos num baile de máscaras permanente, entusiasmado pelo arrependimento dos outros. Somos infiéis na felicidade e insensíveis à dor. As dissertações são infinitas. O verde cresce rente às paredes. Apenas as cidades florescem. Nas aldeias, cheira-se a morte em cada canto. A gratidão defende-se do ridículo. Choveu muito. Algumas pétalas das flores mais frágeis boiam na água. Por aqui, apenas as tempestades são tão grossas como a realidade. Os olhares parecem esboços de banda desenhada, imprecisos, turvos, vingativos. À medida que perdemos os ofícios perdemos também a alma. Ergue-se da terra um vapor denso. A passarada dispersa-se pelos ramos das árvores. Os dias morrem antes de serem salvos. A aldeia entregou-se ao sono. Os velhos caminhos cegaram. As muralhas apenas retêm o tempo. A luz embate contra a espessura da saudade. Dentro de casa arrumam-se as sombras. Também elas querem descansar. As criaturas gritam dentro dos livros como se estivesse eminente um incêndio. Estamos no centro do vórtice das recordações. Lembramo-nos ainda bem do tempo da paixão, dos juízos ligeiros. Alguns vultos inclinam-se para a claridade. As horas deixaram de ser benévolas. São agora mais curtas. A indiferença produz sempre o vazio. Nada acontece. As casas dormem. Queremos defender-nos das mentiras com conselhos. A inteligência é um fascínio. Agora sabemos passar pelo meio dela como se estivéssemos a atravessar um rio a vau. Uso as palavras sem oxidantes para suportar a decadência. Os equívocos são sempre tóxicos.


publicado por João Madureira às 07:00
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