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TerçOLHO

Este é um espaço dedicado às imagens e às tensões textuais. O resto é pura neurastenia.

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17
Out19

Poema Infinito (478): O Verbo

João Madureira

 

 

Quando se diz a verdade não se peca. Nem na confissão, nem fora dela.  Assim nos ensinaram. Os olhos de Deus assemelham-se aos dos felinos, são amarelos, frios e indiferentes. Deles desapareceram todos os vestígios de emoção. Dizem que o ato de contrição foi capaz de absolver e fazer perdoar até os homens que crucificaram Jesus Cristo. Deus lavou o seu corpo branco nas águas do rio. Vestiu-se depois com as roupas que guardava na velha Arca. Sem preceitos, preconceitos ou pedidos. Chamou tudo que existe em silêncio. Deixou sair de si o ódio secular. Abriu os braços à aurora. Depois olhou o mar, os horizontes, as montanhas e as fontes. Foi à procura do seu filho querido e encontrou o sepulcro aberto. Viu pela primeira vez uma espécie de desgosto fingido. O seu testemunho é um mar de solidão, uma montanha de angústia. A sua voz transfigurou-se. Recusou os poetas e os seus versos suplicantes. Todo o sonho é um gemido. A eternidade é o seu principal sofrimento. É faminto de ternura. Um raio rasgou o céu. Deus abriu então os portões da madrugada e passeou pelo tempo como um vagabundo ilustrado. Inventou os castigos para depois poder perdoar. Criou devagar os dias e as horas. Criou os gestos e os gritos, o direito e o avesso da verdade. Originou o assombro, a sedução pelos abismos, as trevas, a vergonha, a guerra e os rios de sangue. Ficou o mundo então redondo. Sobre tudo caiu o esquecimento. Correu o tempo um pouco mais depressa. Os homens começaram a dançar à roda das fogueiras, transformando a dança e o fogo em rituais. Todos os caminhos vão agora dar à morte. Fizeram de um sudário um objeto de culto e passaram a adorá-lo. Desdenham da carne, dizem-na fonte de pecado. As palavras começaram a recusar os poemas. Os corpos deixaram de germinar. As mulheres passaram a parir com dor. A vida começou a ser uma imprecisão. O silêncio transformou-se em mar e passou a ser salgado. Os galos bíblicos começaram a cantar três vezes antes de cada traição. A humanidade passou a ser uma rotina. São finitos os desejos humanos. São infinitas as desculpas divinas. Também o instinto se ensina. A raiva passou a ser um cilício. A humildade passou a fazer parte do teorema da paciência. O paraíso passou a ser uma fantasia. Pobres poetas que se alumiam com os sonhos. O Céu está deserto. Nem Deus lá vive. No universo continuam os meteoros a arder. Apenas as palavras conseguem ressuscitar os mitos. É com elas que também se finge a verdade. A eternidade é uma força de expressão. Onde há crença habita também a descrença. Também a razão amadureceu. Novos deuses menores nasceram nos desertos. E anjos. E santos. As flores são agora mais vagas. Os poetas transformaram-se em sacerdotes da hipocrisia. Lembro-me muito bem que o pão da avó, mesmo azedo sabia sempre a ternura. Sabia ela cantar o desespero para o tornar suportável. Cristo luta agora contra uma espécie de irmão gémeo. Os irmãos estão desirmanados. Começo a entender os lobos. Libertei-me da minha tribo. Aprendi que o agressor acaba sempre por ser o mais agredido. É preciso interromper a cadeia da progressiva adição do descobrimento. Ao fim do dia sento-me a descansar no meu banco do desassossego. As minhas lágrimas estão ainda em bruto. Tento acreditar que o sorriso da poesia é belo. Que a eternidade é uma espécie de luz que vem de lado nenhum. Que Deus é um verbo.

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