Quinta-feira, 24 de Outubro de 2019

Poema Infinito (479): Ao longe

 

 

Quando o sol é de feição tudo resplandece: as sementeiras, os rebentos das árvores, as moitas bravas. E as ervas ruins. Até o rosto dos humanos exprime uma obtusa autossuficiência. Os melhores cânticos são os que misturam alegria e tristeza. Lembro-me de ir à erva para os coelhos. E também de ir à missa. Ensinaram-me a imitar as pessoas. Não gostei. Nunca pratiquei. O outono começou a colorir as folhas com o amarelo acre das coisas murchas. As folhas secas caem no rio com um murmúrio. O orvalho mantém-se na erva e faz brilhar como prata as teias de aranha. Apenas o chilrear dos pássaros interrompe o silêncio. São visíveis nos caminhos os regos que a chuva do ano anterior cavou profundamente. Os olhos fixam-se no voo oblíquo das codornizes. As aves selvagens passam a gritar no céu azul. Tudo adquire um sentido novo e oculto. O canto das toutinegras está envolto numa tristeza inconsciente. A avó dizia que quem peca junto é juntos que se apresentam no Juízo Final. Nessa altura, o fumo subia das chaminés para o céu azul, as nuvens ficavam rosadas com a luz do sol, a geada espessa cobria os muros, as terras e os telhados. E os animais fumegavam. Outras vezes, com olhos velados, olhávamos os campos arrasados pela neve. O branco asfixiava-nos os olhos. Depois a terra aquecia e nascia erva nova. A determinado momento tudo cai nas espessas trevas do esquecimento. Por vezes, uma estrela amarela isolada brilha por instantes no firmamento. Para as formigas, os grãos de areia devem parecer-lhes pérolas que caem sobre a terra. Tudo o resto é o fim do mundo. O vento traz agora um odor de terras estrangeiras e desconhecidas. Baloiça-se entre as casas um estranho silêncio. O sussurrar da solidão tornou-se mais forte. Uma névoa esbranquiçada e densa submergiu os túmulos, as ravinas, as casas, os campanários, os carvalhos e os pinheiros. O vento escancarou as portas do vestíbulo. Ao longe, ouvem-se os apelos inquietos dos patos bravos. Anoiteceu também lá fora. Lá em baixo, no rio, peixes vagabundos saltam na escuridão. E de novo o silêncio. As árvores gemem, oscilando. O chão parece morto. Já ninguém o trabalha. Nada produz. Os velhos passam longo tempo imóveis, com a mão em pala sobre os olhos perscrutando a larga estrada. Ninguém chega. Também já ninguém parte. As rabiças já não gemem alegremente na terra. E os machados já não batem debaixo dos telheiros. Agora reina sobre tudo um silêncio opaco que cobre as casas e os pátios. As ferramentas choram pelos antigos donos. As palavras parecem dentadas. Sobra o pão, mas faltam os fornos e as masseiras. E as mãos que amassam e o ajudam a levedar. Já ninguém bate a massa em silêncio e reza para que ela cresça. Oiço a minha voz e não a reconheço. O eco é seminal. Um bom sorriso ajuda a salgar tanto o pão como as palavras. Os bons guerreiros estão fartos da paz e da guerra. E os revolucionários da revolução e da contrarrevolução. Lá fora, o dia começa a romper. O vento faz bater as portadas. Parece que perdi o combate. Já mal distingo os sonhos da realidade. O calor rebenta até as próprias pedras. A velha escola está em ruínas, no recreio dormem os gatos estendidos ao sol. A leviandade matou a tradição. Corto sozinho o pão. A avó já morreu há muito. Limpo os lábios a um guardanapo bordado pela mãe. Também ela já morreu. Vejo surgir no escuro centelhas de fogo. Parece o cigarro do pai. Também ele já morreu há muito. Sinto nos lábios um sabor quente e salgado.


publicado por João Madureira às 07:00
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