Quinta-feira, 7 de Novembro de 2019

Poema Infinito (481): Queda

 

 

O universo está em queda dentro do seu caos. O sol morre aos poucos. A galáxia expande-se em espiral  através dos seus braços. As moléculas separam-se. Oiço o murmúrio das estrelas. Sinto frio. Sinto-me a nadar no inverno. A minha mente converge para um ponto único de luz. Sinto o sussurro da noite. Os pássaros dizem, para quem os quer ouvir, que o som da manhã é mais doce que o anoitecer. Tudo está mergulhado na sombra. As pessoas movem-se como se fossem  sombras mais escuras, fundindo-se umas nas outras. Depois separam-se. Ouve-se uma espécie de música suave que preenche o infinito que já passou. Outro lhe vai suceder. Não há vida nova dentro de gaiolas. Não é fácil competir com aquilo que é imutável. O vento de outono desperta o passado e as suas recordações. O que interessa é nunca abandonar o caminho. O caminho do desejo e da liberdade é infinito. Por isso não pode ser todo percorrido. O caos é um caminho caótico, instintivo. É cego. É brutal. Procura sempre a magia. A magia do verbo. A ambição maior é destruir as palavras de Babel. Destruir o anjo autor da alquimia. Depois a combustão costuma baixar, perder o impulso, transformando-se na voz sibilina da criação. Estão queimadas as pradarias dos cavaleiros da Távora Redonda. As namoradas costumavam ser meninas delicadas que tomavam ar na janela. Houve tempo em que as montanhas em redor do povoado tinham mais lobos do que gente. Os antepassados, quando amadurecidos, ganhavam uma auréola de luz mágica e depois atravessavam os sonhos cavalgando corcéis magníficos. Quando chegava o seu fim, perdiam a beleza e o mistério. Ficaram as histórias. E também a memória das águas claras, das fontes a correr entre os choupos tristes e altos que abanavam com o vento. É agora o tempo de nos equilibrarmos na ponta das sombras. O espírito continua a ser o insaciável recolector de desejos insatisfeitos. O destino dos que me são queridos continua a revelar-se muito teimoso. O desdém lá segue o seu curso inexorável. O meu país continua a ser aquele que deixa passar. Não lê nem muda, apenas ouve os outros com os seus ouvidos de tísico. Gosto, sem chegar a amar as cidades. Amo, sem chegar a gostar das aldeias. Esqueço a forma para adivinhar a alma. Lá fora cheira a tristeza. A genialidade é uma busca continua sem princípio nem fim. Uma deceção profunda separa a sensualidade da castidade. Cortar uma flor é um ato de guerra inútil e cruel. A beleza não se colhe nem se partilha. As promessas são mimos quase em vias de extinção. Não é necessário pôr-se em causa a alma, nem a metafísica da luz. Regressa a ideia inquietante do Dilúvio. Com a água cresce a inquietação. E o tédio das flores abertas. E tudo aquilo que ignoramos: a verdura insolente, as florestas que tilintam, a nudez dos prados, as infantas com púbis em tons de arco-íris e as pessoas docemente infelizes. A velha escola está à venda, a igreja mais feia do que nunca e o velho castelo iluminado como uma discoteca. A torre sineira já não dá horas. Já ninguém delas precisa. São agora as mestras do silêncio. O tempo tornou-se longo e melancólico. Os atalhos estão impraticáveis e os cabeços cobertos de giestas. Lá em baixo reúnem-se as brumas. As cores próprias da vida começam a esmorecer. O sabor das partes mais íntimas do teu corpo continua a ser ácido.


publicado por João Madureira às 07:00
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