Quinta-feira, 14 de Novembro de 2019

Poema Infinito (482): Respiração

 

 

Os corpos pousados sobras as pedras procuram apurar-se. Entra-lhes a luz pelas mãos. Os rios penetram pela zona da cabeça. Antigamente a fome era dura, rápida, urgente. A fome agora é lenta, vem sempre acompanhada da fartura que temos de rejeitar.  Agora a fome é uma cura e a fartura uma doença. A fome é um vício, uma moda, uma necessidade. Os corpos incham vítimas das sumptuosas ironias da sociedade ocidental. Louvado seja o Senhor. O amor brutal transformou-se num campo de papoilas. Num canteiro as armas floridas, do outro lado as rosas densas como granadas. O princípio de uma coisa é sempre outra coisa. Uma ideia feita de palavras pequenas que, por incrível que pareça, aumentam o tamanho do nosso mundo. Vivemos num mundo de moda, até num mundo de moda literária, que é a pior de todas. Vendem-se livros amorosos envoltos em cuecas de renda. A raiva transforma-se em destino. Não desconfio das pessoas, mas também não acredito nelas. Os pés confirmam o caminho e o nosso caminhar. O céu, por vezes, fica de lado e nele passeiam nuvens que parecem pessoas cheias de gravidade, afetos e verosimilhança. Cada pessoa começa a nascer de forma invisível, como se fosse um Deus. Os dedos da avó continuam a aquecer o pão. O seu sorriso voa dentro de nós. A imagem da noite é redonda. As metáforas ardem como se fossem velas. O silêncio prepara-se para nos seguir. Regressam as pequenas alucinações. Amanhã resplandecerá a neve no cume dos montes. Observar essa paisagem transforma-nos, por vezes, em anjos. O vento da serra virá envolto em cristais de gelo. No meio deste abandono ou se fica santo ou doido. No pátio lajeado ouve-se o ressoar dos cascos do cavalo do tio João. O calor chega-nos vindo de um lume de cerejeira. Na capela do monte vivem os espíritos da aldeia. Depois do apocalipse partir-se-ão os sete selos. As conversas com Deus continuam cheias de banalidades. A intimidade aproxima-nos da solidão e desperta em nós a confidência, o pretexto para os desejos e para o vício. Agora nomeiam-se as ilusões. O cinismo é muito mais velho que as igrejas. Provavelmente anterior à honestidade. As sombras por aqui estão mais lentas. E o sono por vir. Estou em crer que, a chegar, chegará tarde. À minha volta acendem-se as imagens todas. E sinto que levedam como o pão dentro da masseira embrulhado em lençóis linho branco. O problema está nos efeitos secundários que provocam. Onde há medo, há dor. Inspirar. Expirar. Inspirar. Expirar. Escuto o ritmo da respiração. A janela parece estar longe. Percebo agora melhor os buracos e as aberturas, o nascimento e a morte. Mas de pouco me vale. Inspirar. Expirar. Inspirar. Expirar. A porta parece estar longe. A memória da mãe parece uma máscara de teatro japonês Nô. Inspirar. Expirar. Inspirar. Expirar. As escadas parecem estar ainda mais longe. E a varanda. Inspirar. Expirar. Inspirar. Expirar. A memória do pai parece uma máscara de teatro japonês Nô. A maldade alegre da demónio cintila lá ao longe. Lembro-me de cair no meio de um buraco cheio de silvas. Voltei todo arranhado e com bagos de sangue nas mãos. A mãe chorou por cima da taça de amoras que tinha colhido. O nevoeiro saltou a cerca. A chuva cai ainda com mais força. Inspirar. Expirar. Inspirar. Expirar. Alguém sobe as escadas para o alpendre. Levanto a cabeça e vejo-te sorrir. Já posso adormecer.


publicado por João Madureira às 07:42
link do post | comentar | favorito

.mais sobre mim


. ver perfil

. seguir perfil

. 13 seguidores

.pesquisar

 

.Dezembro 2019

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9
14

15
16
17
18
19
20
21

22
23
24
25
26
27
28

29
30
31


.Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

.posts recentes

. Em Paris

. Poema Infinito (486): Dis...

. Em Paris

. Em Paris

. 472 - Pérolas e Diamantes...

. Feira dos Santos

. ST

. Na cozinha

. Poema Infinito (485): Sed...

. Olhares

. Vacas e balizas

. 471 - Pérolas e Diamantes...

. Em Amarante - Cultura que...

. Na feira

. No Porto

. Poema Infinito (484): Eco...

. Chega de bois em Boticas

. No Barroso

. 470 - Pérolas e Diamantes...

. Interiores

. Castelo de Montalegre

. No Barroso

. Poema Infinito (483): Ilu...

. No Barroso

. Na aldeia

. 469 - Pérolas e Diamantes...

. Na aldeia

. Noturno

. ST

. Poema Infinito (482): Res...

. No Barroso

. No Louvre

. 468 - Pérolas e Diamantes...

. AB

. VS3

. VS2

. Poema Infinito (481): Que...

. VS

. CL

. 467 - Pérolas e Diamantes...

. Pisões

. Misarela

. Olhares

. Poema Infinito (480): As ...

. Na Abobeleira

. Barroso

. 466 - Pérolas e Diamantes...

. São Sebastião - Alturas d...

. Em Coimbra

. No Louvre

.arquivos

. Dezembro 2019

. Novembro 2019

. Outubro 2019

. Setembro 2019

. Agosto 2019

. Julho 2019

. Junho 2019

. Maio 2019

. Abril 2019

. Março 2019

. Fevereiro 2019

. Janeiro 2019

. Dezembro 2018

. Novembro 2018

. Outubro 2018

. Setembro 2018

. Agosto 2018

. Julho 2018

. Junho 2018

. Maio 2018

. Abril 2018

. Março 2018

. Fevereiro 2018

. Janeiro 2018

. Dezembro 2017

. Novembro 2017

. Outubro 2017

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

.favoritos

. Poema Infinito (404): Cri...

.Visitas

.A Li(n)gar