Quinta-feira, 21 de Novembro de 2019

Poema Infinito (483): Iluminações

 

 

A casa está iluminada, florida. O seu centro abre-se com os efeitos da magia. Depois da chuva, veio o luar. Percebe-se o brilho das estrelas através dos ramos das árvores. Uma compaixão sublime envolve a noite. Aflige-me esta simplicidade trágica. Faz-me pensar nos primeiros mártires do cristianismo. Consola-me a ideia de amanhã irmos para as matas apanhar míscaros. O rio parece pálido e com febre. Agora também os rios adoecem. Alguns chegam mesmo a morrer. Os meninos já não se assemelham aos anjos. Parecem feitos de vidro e metal. As confidências são agora operações indolores. A mãe costumava dizer que perdera ao mesmo tempo a virgindade e uma bolinha brilhante que iluminava o seu brinco de ouro esquerdo. O bosque continua a guardar este e outros segredos. Ninguém consegue medir a virulência das paixões da adolescência. O amor clandestino revela sempre condições falsas de relacionamento. Agora o Romeu ama outro Romeu e a Julieta outra Julieta. E parece que daí não vem mal ao mundo. Perdoem-me a má-fé com o género humano. É mesmo defeito. Continuo a querer chegar ao fundo dos enigmas. Todos tentamos combater a bestialidade que transportamos dentro de nós com filosofia e paixão. Quem acredita na ressurreição está salvo. O amor é irredutível a qualquer tipo de originalidade. A preocupação com o sexo torna-o vingativo. Coitados dos pobres que são bonitos demais para as suas posses, nunca passarão de anjos sem asas. Oiço os passos dos veados que se deslocam para a densidade silenciosa do bosque. As vinhas e as oliveiras estão carregadas de distância. A noite ainda não caiu. Alguém se veste como se estivesse com a intenção de cometer um crime. Alimento-me na condição satânica de um desejo indestrutível. Quem com ele nasce, com ele acaba por morrer. Há corpos sem alma e também almas sem corpo. A avidez transforma o luxo em fome. Já me vai faltando paciência para correr caminhos e observar catedrais. A quem possui a febre da ascensão convém recordar a lei da gravidade. A eternidade constrói-se e desfaz-se todos os dias. Hora a hora, segundo após segundo. O instinto é a fonte de toda a autêntica individualidade. Sonho ir de burro até Jerusalém. Mas é viagem de ida sem lugar a volta. A ânsia transforma o espaço e as horas. A terra está despovoada e os poucos colonos velhos são gente estranha. A terra natal transforma-se sempre na nossa terra prometida. Jerusalém habita em nós. Depois de levantarem os nevoeiros, nasce uma nova manhã eterna. Tenho saudade das distâncias, da claridade. Todos temos medo do escuro. A difícil arte da liberdade continua a ser uma intenção. Uma intenção provocadora. Deixo correr a água das chuvas dentro de mim como se fosse um desleixo. Olha para ti como se fosses um jacarandá. O assombro é uma coisa íntima. Pelo meio das paixões difusas, encontram-se sempre meias verdades. Os fantasmas vêm de outras idades e de outras verdades. Já lá vai o tempo em que Adão e Eva se deitaram no chão depois da pecadora comer a maçã. Nesse momento tornou-se fértil. Outros pecados nasceram então dentro de si. Foi o pecado a origem da sua humanização. Com o seu rabo esmagou a flor da amargura. Adão pôs-lhe a mão em concha onde devia. A frescura fez-se lume. Depois visitou-a um anjo que falava em verso e que continuou a aparecer a mulheres que fizeram história. O que não se sabe é se o ungido nasceu sem dor.


publicado por João Madureira às 07:00
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