Quinta-feira, 26 de Dezembro de 2019

Poema Infinito (488): Luz suspensa

 

 

Sinto o espanto. A maravilha do espanto. O seu milagre. O aroma do tempo fecunda o bosque de ciprestes. O crepúsculo fecunda as faias e os pinheiros. O saber sabe a silêncio. Quanto mais intensa é a luz, menos se vê. A aflição é sempre uma dor aguda. Viver equipara-se quase sempre a um único e longo solo de jazz. A aldeia assemelha-se a um museu em ruínas. Até as memórias se desmoronaram. O tempo já se perdeu por aqui. As saudades mordem-me os olhos. Além do gozo, há o gosto. Além do gosto, existe o gozo. O problema é o erotismo recalcado. Esse não pode ir a despacho. O fogo do riso matinal já lá vai. A fotografia revela a bruma melancólica da meia idade. Cantemos devagar a cosmologia, progressivamente e com fé iluminista. Toda a audácia é particular. Montemos as máquinas sinfónicas, os desastres de Goya, as laudes alegóricas de Rimsky Korsakov, as peças arrecadadas por Deus no momento seguinte ao Big Bang. Sobre os campos de batalha desce a névoa. O vento atiça as fogueiras do Apocalipse. A memória pode salvar alguns rostos. Mas os mitos foram todos destruídos. A chuva apaga as suas cinzas melodiosas. Uma folha amarela, descrevendo lentos círculos, pousa sobre o caminho das formigas. A infinitude lança-se contra a unidade. E a unidade lança-se contra a infinitude. Ali, na direção do infinito, o frio imóvel começa a subir e as borboletas morrem. O outono estreitou ainda mais os dias. O pássaro é ainda mais leve do que a sua própria sombra. O seu canto desliza pelos outeiros como se fosse um desejo rápido. Toda a fuga invisível é um processo amargo. Os corpos e as máscaras resignam-se às horas claras. De olhos fechados, sigo a iluminação das raízes. Por vezes parecemos imagens inúteis, postadas em cima dos móveis, encostadas à sua própria recordação. Podemos falhar o desejo, mas não o seu intento. Deixei de escrever cartas às causas perdidas. O tempo seca os punhos como se fossem peras. O coração já não grita. A razão emudeceu depois de deixar de o ser. Os caminhos da verdade ficaram desertos, cheios de cruzes. Os anjos revolucionários suspiram de asas fechadas. Não sabem para onde ir. Os gatos continuam enigmáticos, por isso fecham os olhos e sonham em caçar o tempo. Também a avó cantava canções em língua antiga, enquanto cosia. Pensava eu que havia música nos seus dedos. As tardes passadas a caminhar no jardim deixaram de ser divinas. Agora estão impregnadas de saudade e melancolia. Escrevo versos para registar as memórias. A memória da erva fria, a memória dos corpos em movimento, a memória dos sorrisos no teu rosto. A memória dos lábios. Sinto as cores a evaporar-se. A luz do jardim está suspensa. Os pensamentos começam a desagregar-se. À superfície, os corpos dos amantes são sempre transparentes. Neles costuma aparecer o fogo secreto. Depois os sinais da sarça ardente passam. E as vozes amorosas tornam-se altaneiras, por vezes histéricas, inclinando-se na direção do seu próprio movimento. A luz dilata-se. É então que o vazio mostra o seu silencio que se costuma confundir com o divino. As horas deixam de chegar a tempo. Sempre adiantadas. Ou atrasadas. O tempo consome a sua própria tranquilidade. A loucura conforma-se à medida que nos afastamos dela. O mundo brilha. A verdade cega. Perdemos tudo aquilo que recusamos.


publicado por João Madureira às 07:00
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